sexta-feira, 18 de março de 2011

Faça seu chefe te demitir

Extraído do Manual do Sabotador

Vai lá otário, puxa-saco do chefe. Faz hora extra, aceita o banco de horas. Diz que aquele trabalho é a coisa mais importante da sua vida. Mostra seu entusiasmo na reunião da segunda de manhã.

Você adora isso. Eu sei. Vai lá fazer o relatório do mês. Esse texto não é para você.

Esse texto é para aquele incompetente que cochila na hora do almoço, que esquece de ler a apostila do workshop sobre gestão empresarial. Estou falando daquele cara que acessa putaria no trabalho, que troca o nome da mulher do chefe ao encontrá-la no jantar de fim de ano. Cara, você é um loser, e é para isso que estamos aqui. Afunde esse barco que nunca deveria ter zarpado.

Em primeiro lugar você é muito bom. Continue assim, mas agora vamos refinar suas técnicas, está na hora de sabotar seu próprio trabalho, mas não daquela forma maravilhosamente intuitiva, falo de procedimentos quase científicos. Você será o tormento do seu chefe e ele vai te demitir por isso. Mas você não dá a mínima.

Em primeiro lugar não se esqueça: seu chefe é um autoritário filho da mãe mother-fucker de primeira grandeza. Há uma incompatibilidade preliminar entre a chefiatura e o respeito mínimo a qualquer fagulha de autonomia. Por isso é seu dever causar a enxaqueca do big boss no fim da tarde, obgrigue-o a sorver mais um pouquinho daquele suposto remédio, um veneno legalizado na forma de pequenas pílulas ou em um amarronzado líquido chamado whisky.

Há várias maneiras de sabotar um emprego, há várias maneiras de ser demitido em alto nível. Falo de uma arte constituída nos subterrâneos dos ambientes empresariais por escórias como você e eu.

Uma estratégia maravilhosa é o Condicionamento da Confiança Recebida e Depois Quebrada (CCRDQ). Opção ideal para aquele funcionário modelo, que levou no couro por anos a fio, gerando lucros para o patrão e recebendo sempre o mesmo salário de merda mais um aperto de mão hipócrita e vagabundo. Deixa o seu chefe confiar, deixa ele concentrar o gigantesco trabalho nas suas mãos, uma conta tão importante. Muita grana, muito prestígio em jogo, o prazo é crítico, sempre o reconforte com palavras de “está tudo sobre controle”. Quando ele pedir algum detalhamento o engane com frases repletas de jargão da área, sempre exagere nos advérbios, escolha os substantivos mais sisudos e vez ou outra inclua um adjetivo. As 20 horas do dia anterior à entrega do produto ligue despreocupadamente e diga que você vai passar umas duas semanas no litoral, o calor está asfixiante, você precisa respirar. Diga que não será possível enviar os arquivos finais, pois seu computador foi para a manutenção, C:/format. Mas não pare por aí, tranquilize-o com a informação de que você acaba de enviar por e-mail os esboços preliminares – aqueles mesmos arquivos que ele te passou três meses antes. Desligue o telefone, o suplício do seu chefe só começou, as próximas 12 horas do sacana serão um inferno. Tu já podes pensar no que vai fazer com o seguro desemprego.

Se sua índole é a ridicularização pública do chefe, você pode apelar para a Fragmentação do Encanto do Opressor (FEO), ótima escolha para desprestigiar aquele diretor ou coordenador que se acha. Aquele tipo que faz uma piadinha sobre você, arrebatando o riso dos lacaios ao redor. Aquele que adora gritar, gosta de posar de mau. Veja, ferrá-lo é um favor que você faz à humanidade. Na noite anterior à reunião vá para a esbórnia, tome todas, se embriague, durma apenas uma hora, não se preocupe, sua demissão não há de demorar. Dia seguinte, após o almoço, sinta o quão incômodo é seu terno, essa gravata idiota, nada propícia para um país tropical. O ar-condicionado além de fazer barulho irritante não vale muita coisa. Respire devagar, deixe o sono se aproximar, deixe seu corpo amolecer, feche os olhos por 20 segundos e curta os procedimentos de decolagem para a fila do desemprego. A piadinha sarcástica do big boss sobre seu breve cochilo vai acordá-lo enquanto gera risadas entre os capachos. Acorde rapidamente, olhe para ele, peça desculpas de uma forma desinteressada. Assim que a atenção desviar de você, conte 10 carneirinhos, outro delicioso cochilo. Em plena a mesa de reuniões, justo no dia em que a pauta é o aumento da produtividade a partir do empenho dos recursos humanos. A psicóloga sentada ao seu lado inconscientemente vai se afastar, ela não quer proximidade contigo, medo de ser contaminada por sua atitude autodestrutiva. Agora seu chefe está gritando, olha só, ele quer acabar contigo, todos em silêncio, aparentemente consternados, mas por dentro satisfeitos com o pito. Olha quanta merda seu chefe está falando, ele realmente saber como gritar, sua voz é tão grave, olha só o nível das ameaças. Tantos clichês, essa história de “lá fora tá cheio de gente querendo seu emprego” é muita velha. Pensando bem, a voz do chefe geral é até bonitinha, ela parece cantiga de ninar, deixa o ritmo dela te embalar, cochile de novo, bem no momento em que ele esteja gritando “quero um funcionário compromissado”.

Escuta essa, também é muito boa. Recomendável apenas aos que possuem uma veia artística, trata-se de Dinamização Intensa de Atividade e Desempenho (DIAD). Seu chefe quer alguém produtivo, então o satisfaça, produza para além do impossível. Você é o cara que dá todas as ideias, o voluntário, quer fazer parte de todos os projetos. Nas reuniões é o que mais fala, levanta as mãos várias vezes, faz perguntas longas pedindo detalhamentos enfadonhos. Após o término de cada reunião corra atrás do patrão, cole nele e comece a comentar sobre os mais variados aspectos, se ele entrar no banheiro vá junto, siga-o com as suas anotações, fale dos números, de suas estimativas. Perca o fôlego, deixe o suor escorrer de sua testa, dê aquele sorriso entusiasmado de garoto de 10 anos querendo agradar a professora. As três da manhã da terça-feira ligue para seu chefe e diga que tem uma ótima ideia para um novo contrato, ele vai custar entender quem é você e de que diabos de contrato está falando. Depois que ele desligar, espere 15 minutos e ligue de novo para pedir desculpas pela ligação anterior, encerre com a frase “estou tão empolgado”. Descubra aonde ele vai na noite de sábado, enquanto estiver na fila do cinema com a esposa e a filha, aproxime-se, não esqueça do terno e da gravata afrouxada, uma prancheta nas mãos, trate-o naturalmente, como se estivessem no expediente, pergunte sobre o corte de gastos com os copos de papel. Aos poucos o funcionário modelo será o terror do big boss, ele terá pesadelos contigo. Não se iluda, seus dias na empresa estão contados. Te compete encerrar com chave de ouro. Chame seu chefe tenha uma séria conversa com ele, diga que está insatisfeito com os índices de produtividade, peça mais esforço, exorte-o a ser mais ativo, fale da responsabilidade que ele carrega nos ombros, da obrigação em bater as metas. Toda vez que alguém perguntar por que você foi demitido, ele responderá constrangido, “era muito produtivo”.

8 comentários:

  1. Useio horário de almoço para postar esse texto! Sou um funcionário modelo!

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    1. já pensou em ser professor?

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  2. Muito bom. Ri demais aqui, claro, no meu trabalho HAHAHAHAHA.

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  3. Karaka, já fui de boné e tênis em uma reunião e os desgraçados não me demitiram!

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  4. Você Gostaria de DEMITIR O Seu CHEFE? E Ter a Vida Que Sempre Sonhou!

    http://www.demitiroseuchefe.com

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  5. Muito bom.
    Posto isso do celular enquanto estou no trabalho , torcendo para meu chefe me dar as contas no próximo salário.

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  6. Muito bom.
    Posto isso do celular enquanto estou no trabalho , torcendo para meu chefe me dar as contas no próximo salário.

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