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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Uma Nova Esquerda?
O debate sobre a validade dos rótulos “Direita” e “Esquerda”, surgidos quando da fundação da modernidade durante o conturbado processo revolucionário francês, como chaves analíticas do mundo político pós URSS é coisa que vai longe. Apenas a título de apresentação da polêmica, até porque esse não é o tema do post, vale lembrar que esse debate esteve/está muito bem representado por dois grandes estudiosos da área. O italiano Noberto Bobbio, que preza pela atualidade dos ditos rótulos e, numa segunda perspectiva (não necessariamente oposta), temos Anthony Giddens, inglês, e conhecido mundialmente pela fundamentação teórica da chamada Terceira Via que, apesar de não desconsiderar por completo as noções vindas da França revolucionária, coloca que a política atual vai além dessas categorizações. Para uma explanação rápida dos princípios norteadores das teses de cada um deles, bem como do debate que se criou em torno, vá aqui.
Particularmente, tendo a concordar com Bobbio sobre a validade dos conceitos, pelo fato de, em primeiro lugar, comportarem mediações (centro, centro-esquerda, extrema-direita etc.) e, num segundo momento, por não serem as únicas chaves de análise do mundo político; até porque as noções de Esquerda e Direita não se limitam ao mundo político somente. O próprio Bobbio explicita uma outra díade usada na rotulação das ideologias políticas, formado pelos conceitos de Liberdade e Autoridade, de modo que a localização de uma idéia próximo a uma ou outra, definiria seu maior ou menor grau de intervenção do Estado na vida pública.
Basicamente, o método pra definirmos se uma ideologia é de Esquerda ou de Direita, ligaria-se à sua relação com a questão da Desigualdade e da Igualdade. Segundo o próprio: “(...) de um lado estão aqueles que consideram que os homens são mais iguais que desiguais, de outro os que consideram que são mais desiguais que iguais.” (Bobbio, 2001). Para as Esquerdas, em geral, grande parte das desigualdades são socialmente construídas, o que significa que a sua eliminação é possível, o contrário seria verdadeira no caso das Direitas. Daí pra frente a discussão só se complica, dado que as múltiplas Direitas e Esquerdas valorizam noções diferentes de igualdade (distribuição da riqueza, jurídica, inteligência dos indivíduos etc.), bem como em variados graus, que vão da igualdade totalitária à desigualdade institucionalmente imposta.
E para colocar mais lenha na fogueira, a alocação da filosofia/ideologia anarquista aí é mais complicada, dado que mantém aproximações com questões caras tanto às Esquerdas quanto às Direitas. A fim de não nos alongarmos mais nesse aspecto, creio que uma fato prático ajudaria bastante nesse dilema teórico: basta lembrar que, historicamente, os anarquismos foram perseguidos tanto por governos de Esquerda quanto de Direita - e pelos Centros também. Portanto, devemos refletir a partir daqui.
Bom, independente do fato da validade ou não dos rótulos de Esquerda e Direita, o ponto é que as assim chamadas esquerdas tradicionais, desde a queda do muro de Berlim, estão rodopiando tontas por aí, e pouco coisa sugere que encontraram um novo caminho. Pra não ir longe, basta ver a reação medíocre dos sindicatos brasileiros na atual crise: mobilização zero, propostas puramente reativas, convergência nula, neo-peleguismo a todo vapor – ironicamente quando da chegada ao poder de um partido de esquerda (sem aspas) –, poder de barganha extremamente fragilizado, bem como uma série de novas questões ainda não incorporadas à agenda do século XXI.
Uma das razões pelo qual isso se explica, é o fato da sociedade do trabalho (aspecto já discutido em outros posts), encontrar-se numa crise sem precedentes o que, indiscutivelmente, joga pra escanteio tudo aquilo que nele se fundamenta. Na medida em que o desemprego se torna um problema constante, sua margem de negociação frente ao capital se esvazia, o que explica, entre outras coisas, a quase-morte da tradicional esquerda aferrada às batalhas pelo trabalho.
Grande dificuldade das esquerdas, também, vemos nas questões relativas ao mundo virtual – até então tidas por elas como “cereja no bolo”. Isso tanto no que diz respeito à web como instrumento de arregimentação e mobilização, como no que toca às questões ligadas aos seus programas ideológicos e propostas de governo que, sem dúvida, ainda estão engatinhando.
Em segundo lugar, vemos, ainda, um desprezo, que beira o cinismo, dos temas ambientais. Nesse sentido, grande parte das esquerdas ainda se nutrem das idéias de progresso e crescimento econômicos ilimitados, idéias caras, que estão na origem das ideologias modernas (Marx é o exemplo paradigmático, mas os anarquistas também beberam nessa água, e ainda muitos bebem), e que estamos custando a largar.
É nesse contexto que vemos o princípio do que tenho a pretensão de chamar “Nova Esquerda” (seria melhor “Novíssima Esquerda”, pois a dita Terceira Via já era assim chamada, mas que, até hoje, não ofereceu algo que viabilizasse mudanças mais contundentes). Em notícia veiculada semana passada, o Partido Pirata Sueco, agora com representantes no Parlamento Europeu, formalizou aliança com os Verdes de diversos países, deixando de lado Comunistas, Socialistas, Social-Democratas e a turma das direitas também. Confira aqui os detalhes da aliança.
No entanto, talvez ainda seja um pouco cedo pra chamarmos essa turma de “Nova Esquerda”, mas vejamos o que nos permite fazer essa afirmação, mesmo que provisória. O Movimento Copyleft tem fundamentos que o traz fortemente pro lado das esquerdas, que é a defesa de redes horizontais de compartilhamento e o questionamento da noção hoje aceita de propriedade – ou seja, preza, portanto, por uma concepção mais igualitária em várias áreas. Algumas propostas vão além, vendo a Internet como uma forma de eliminar o maior número de mediações possíveis no mundo real – no comércio, na produção, na política, no ensino etc – enfim, usar a web como um meio de intensificar a autogestão e a democracia direta. Essa turma, hoje, tem visto a formalização de seus projetos pelo surgimento e crescimento dos Partidos Piratas mundo afora.
Pelo lados dos Movimentos Ambientalistas, a questão é mais complexa, dado ser um tema que está melhor compartilhado entre Direitas e Esquerdas. Na verdade, a própria questão ambiental é originária das Direitas, compondo as agendas das Esquerdas apenas em meados das décadas de 1960-70 do XX. Até hoje a questão ambiental não é prerrogativa de nenhum dos dois lados, e é interessante pensarmos que foi justamente por meio desse movimento que Guiddens criticou a díade de Bobbio. É um ponto interessante a se pensar.
E mais, creio que o fato de, até então, nem Esquerdas e nem Direitas terem pegado com afinco os temas da ecologia, da sustentabilidade, do crescimento econômico etc, coloca os Verdes como algo mais indefinido. A própria trajetória desses, até hoje, muitas vezes, despreocupados quanto aos vínculos das questões ambientais com os problemas sociais, mostra uma incerteza latente.
No entanto, por outro lado, essa recente aproximação entre Verdes e Piratas não deixa de sugerir, pelo menos para mim, esperança. Isso pode significar uma re-fundação do espaço público hoje tão desgastado por essas já carcomidas Direitas e Esquerdas que vemos por aí. E, na medida em que esses dois movimentos nascem de questões bastantes alinhadas à vida das pessoas hoje em dia, inclusão digital e meio ambiente, tal proposta pode ganhar muita força.
Mas ainda é tudo muito recente. É difícil saber se a aliança se sustentará e crescerá, como as esquerdas tradicionais vão reagir, como os governos incorporarão essas demandas e por aí vai.
Contra as esquerdas tradicionais, por demais autoritárias – no sentido conceitual do termo – e ainda atreladas à lógica do trabalho, uma “Nova Esquerda” pode estar surgindo: Verdes e Copyleft, Sustentabilidade e Compartilhamento, contra Desenvolvimentismo e Propriedade Privada Intocável.
Saúde e Anarquia pra todos!
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quinta-feira, 2 de julho de 2009
Educação Ambiental e Mudança de Comportamento
*Este texto é uma contribuição do colega Valdir
A Educação Ambiental (EA), tendo por base a alfabetização ecológica, conforme colocada por Fritjof Capra, que é a assimilação de princípios ecológicos para o entendimento dos problemas ambientais e soluções destes, é uma das principais ferramentas para a sustentabilidade planetária. Junto com o desenvolvimento e adoção de novas tecnologias menos impactantes, reduzindo as emissões de poluentes, redução da extração de recursos naturais e uma nova conduta da política, com a valorização das pessoas, principalmente, as menos favorecidas socialmente. É parte inerente da EA a mudança de comportamento, por exemplo, diminuir o consumo, tomar atitudes menos poluidoras (reduzir o uso do carro, dar preferência ao transporte público, comprar produtos mais justos socialmente e de maneira limpa).
Mas, se muitas destas escolhas são dificultadas pela falta de recursos financeiros (os produtos ditos ecológicos geralmente são mais caros) ou usar o transporte público é quase impossível, alternativas para que todos nós participemos do processo de mudança, em busca do desenvolvimento sustentado, existem é possível observarmos isso no dia-a-dia.
Este processo de mudanças começa em nós, adotando a políticas dos 3R’s. Reduzir, Reutilizar e Reciclar, nesta ordem decrescente de importância. Muitas pessoas têm somado um quarto R, Repensar. O importante é ter em mente que não é apenas reciclar, ajudando uma pessoa que cata latinhas de alumínio. A reciclagem de latinhas de alumínio não é uma solução apenas social para a geração de renda, aliás, é uma demonstração das desigualdades sociais, na qual, muitas pessoas têm que viver de subempregos ou na informalidade para sobreviverem. Este também é um ato muito importante ambientalmente, pois reduz o uso de matérias primas e ainda economiza energia elétrica, usada em quantidades enormes na transformação da bauxita em alumínio.
O processo de mudança neste caso está relacionado a dois aspectos. Primeiro: deve-se reduzir o uso das latinhas, usar mais embalagens retornáveis, e antes mesmo disso, reduzir o consumo de refrigerantes, preferindo produtos mais saudáveis. Segundo: mudança de posição da sociedade em relação às desigualdades sociais, pressionando o poder publico, estimulando iniciativas de empresas, do terceiro setor e de cada cidadão, cada uma dentro de suas possibilidades.
Um fato interessante sobre a redução do consumo, é pensar qual é a quantidade de recursos naturais e energia gastos para produzir os produtos que consumimos. A FAO está com uma campanha sobre o uso intensivo da irrigação (utilizada no cultivo de 40% dos alimentos), fazendo com que a produção de uma caloria de comida exija um litro de água. Na campanha, é alertado que para produzir um hambúrguer são necessários 2400 litros de água. Mas pense em outros aspectos relacionados à produção de carne: desmatamento para a formação de pastos e plantio de soja (para exportação, usada na Europa para fazer ração animal); a perda de serviços ambientais e biodiversidade decorrentes disto, o gás metano produzido pelo gado bovino (flatulências e arrotos).
Nas teias alimentares há perda de energia quando a matéria passa de um nível trófico para outro (quando um organismo é consumido por outro), porque somente parte da energia é transformada em biomassa, o restante é gasto com a produção de energia (respiração). Pensando no nosso consumo, quando comemos produtores primários (plantas) estamos absorvendo uma maior parte da energia absorvida do sol do que quando comemos carne, isto é, o desperdiço de energia é menor, quando pensamos no ecossistema. Isto também determina outra conseqüência, as áreas destinadas à produção de produtos vegetais são bem menores do que para a produção de animais, reduzindo os impactos ambientais. Para entender isto, por exemplo, se formos comer soja, uma dada área terá que ser plantada para a produção dos grãos, mas se formos comer carne de gado criado com ração (a base de soja), uma área bem maior de soja terá que ser plantada para nos alimentar com a mesma quantidade de calorias.
Observe quantos problemas podem ser evitados dependendo da nossa escolha na hora de comer. E ainda nem comentei nada sobre a questão ético no fato de comermos carne. Mas continuando no raciocínio do desperdiço, se consumimos mais calorias do que o necessário, além de ser prejudicial à saúde, é também prejudicial ao meio ambiente, pois este excesso de energia consumida é também uma forma de desperdício. Fazendo uma analogia, se você toma um banho longo, ou seja, por um período maior do que o necessário, você está desperdiçando energia, quanto a isto não há duvidas, correto? Quanto ao consumo de calorias, para obtermos este excesso, mais soja terá que ser plantada para nossa alimentação. Agora imagine, se você come muita carne, quanta soja terá que ser plantada para suprir as suas necessidades e ainda o excesso. Estudos científicos têm demonstrado que o consumo reduzido de calorias é um fator que alonga a vida em ratos, aumentando ainda a qualidade de vida destes.
Bom, com estes argumentos, quero mostrar no que acredito. A EA é um caminho para a melhoria de vida de todos e para alcançarmos a sustentabilidade ambiental e social. Mas para isto, cada um não apenas pode, mas deve mudar suas atitudes, tornando-as mais responsáveis sócio-ambientalmente. E por último, como já dizia Paulo Freire, reforçado pelo Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, a educação é um ato político!
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A Educação Ambiental (EA), tendo por base a alfabetização ecológica, conforme colocada por Fritjof Capra, que é a assimilação de princípios ecológicos para o entendimento dos problemas ambientais e soluções destes, é uma das principais ferramentas para a sustentabilidade planetária. Junto com o desenvolvimento e adoção de novas tecnologias menos impactantes, reduzindo as emissões de poluentes, redução da extração de recursos naturais e uma nova conduta da política, com a valorização das pessoas, principalmente, as menos favorecidas socialmente. É parte inerente da EA a mudança de comportamento, por exemplo, diminuir o consumo, tomar atitudes menos poluidoras (reduzir o uso do carro, dar preferência ao transporte público, comprar produtos mais justos socialmente e de maneira limpa).
Mas, se muitas destas escolhas são dificultadas pela falta de recursos financeiros (os produtos ditos ecológicos geralmente são mais caros) ou usar o transporte público é quase impossível, alternativas para que todos nós participemos do processo de mudança, em busca do desenvolvimento sustentado, existem é possível observarmos isso no dia-a-dia.
Este processo de mudanças começa em nós, adotando a políticas dos 3R’s. Reduzir, Reutilizar e Reciclar, nesta ordem decrescente de importância. Muitas pessoas têm somado um quarto R, Repensar. O importante é ter em mente que não é apenas reciclar, ajudando uma pessoa que cata latinhas de alumínio. A reciclagem de latinhas de alumínio não é uma solução apenas social para a geração de renda, aliás, é uma demonstração das desigualdades sociais, na qual, muitas pessoas têm que viver de subempregos ou na informalidade para sobreviverem. Este também é um ato muito importante ambientalmente, pois reduz o uso de matérias primas e ainda economiza energia elétrica, usada em quantidades enormes na transformação da bauxita em alumínio.
O processo de mudança neste caso está relacionado a dois aspectos. Primeiro: deve-se reduzir o uso das latinhas, usar mais embalagens retornáveis, e antes mesmo disso, reduzir o consumo de refrigerantes, preferindo produtos mais saudáveis. Segundo: mudança de posição da sociedade em relação às desigualdades sociais, pressionando o poder publico, estimulando iniciativas de empresas, do terceiro setor e de cada cidadão, cada uma dentro de suas possibilidades.
Um fato interessante sobre a redução do consumo, é pensar qual é a quantidade de recursos naturais e energia gastos para produzir os produtos que consumimos. A FAO está com uma campanha sobre o uso intensivo da irrigação (utilizada no cultivo de 40% dos alimentos), fazendo com que a produção de uma caloria de comida exija um litro de água. Na campanha, é alertado que para produzir um hambúrguer são necessários 2400 litros de água. Mas pense em outros aspectos relacionados à produção de carne: desmatamento para a formação de pastos e plantio de soja (para exportação, usada na Europa para fazer ração animal); a perda de serviços ambientais e biodiversidade decorrentes disto, o gás metano produzido pelo gado bovino (flatulências e arrotos).
Nas teias alimentares há perda de energia quando a matéria passa de um nível trófico para outro (quando um organismo é consumido por outro), porque somente parte da energia é transformada em biomassa, o restante é gasto com a produção de energia (respiração). Pensando no nosso consumo, quando comemos produtores primários (plantas) estamos absorvendo uma maior parte da energia absorvida do sol do que quando comemos carne, isto é, o desperdiço de energia é menor, quando pensamos no ecossistema. Isto também determina outra conseqüência, as áreas destinadas à produção de produtos vegetais são bem menores do que para a produção de animais, reduzindo os impactos ambientais. Para entender isto, por exemplo, se formos comer soja, uma dada área terá que ser plantada para a produção dos grãos, mas se formos comer carne de gado criado com ração (a base de soja), uma área bem maior de soja terá que ser plantada para nos alimentar com a mesma quantidade de calorias.
Observe quantos problemas podem ser evitados dependendo da nossa escolha na hora de comer. E ainda nem comentei nada sobre a questão ético no fato de comermos carne. Mas continuando no raciocínio do desperdiço, se consumimos mais calorias do que o necessário, além de ser prejudicial à saúde, é também prejudicial ao meio ambiente, pois este excesso de energia consumida é também uma forma de desperdício. Fazendo uma analogia, se você toma um banho longo, ou seja, por um período maior do que o necessário, você está desperdiçando energia, quanto a isto não há duvidas, correto? Quanto ao consumo de calorias, para obtermos este excesso, mais soja terá que ser plantada para nossa alimentação. Agora imagine, se você come muita carne, quanta soja terá que ser plantada para suprir as suas necessidades e ainda o excesso. Estudos científicos têm demonstrado que o consumo reduzido de calorias é um fator que alonga a vida em ratos, aumentando ainda a qualidade de vida destes.
Bom, com estes argumentos, quero mostrar no que acredito. A EA é um caminho para a melhoria de vida de todos e para alcançarmos a sustentabilidade ambiental e social. Mas para isto, cada um não apenas pode, mas deve mudar suas atitudes, tornando-as mais responsáveis sócio-ambientalmente. E por último, como já dizia Paulo Freire, reforçado pelo Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, a educação é um ato político!
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terça-feira, 23 de junho de 2009
Prima pobre e prima rica: a Floresta Amazônica e a “Moita” Atlântica
Esse texto é uma contribuição do colega Valdir, a convite do C.I.S.C.O.
“Agir localmente, pensando globalmente”. Este jargão do movimento ambientalista mundial tem sido repetido insistentemente pelos chamados “sensibilizadores”, porém a sua essência muitas vezes é deixada de lado. Pois as questões ambientais exigem ações imediatas, planejadas, exigidas por todos e desenvolvidos tanto individual, quanto coletivamente. Digo isto, pois se não é possível mudar o mundo, fazer o que esta ao nosso alcance é a nossa contribuição para que algo mude. Desta forma, o que fazemos em casa, no bairro e em nossa cidade pode ser uma grande contribuição a ser somada com a das outras pessoas.
A política nacional para o meio ambiente é uma das formas que o povo brasileiro tem de dar rumo ao nosso desenvolvimento, conservando o meio ambiente, e esta contribuição é importante para todo o planeta, sendo o Brasil um dos países com maior potencial no combate às mudanças climáticas e proteção da biodiversidade.
O desenvolvimento é divulgado como única saída para o país, e qualquer alternativa é aparentemente utópica para as elites e a grande massa que acreditam que o consumo é a única forma de gerar renda. Umas das opções para a manutenção do programa governamental para o desenvolvimento econômico se concentra em um dos poucos pontos em que poderíamos ser orgulhosos da política ambiental brasileira, a legislação, considerada avançada e bastante restritiva, no entanto, cumprida parcialmente. Se esta fosse realmente cumprida, a situação da Mata Atlântica seria muito diferente. Ela apresenta cerca de 7,91% de sua cobertura original em remanescentes florestais com mais de 100ha (cada hectare equivale a um campo de futebol), considerados de tamanho compatível com a manutenção de parte considerável das espécies da fauna e flora por um médio período de tempo (100 anos). Por causa desta reduzida cobertura vegetal a Mata Atlântica é chamada por muitos de “Moita” Atlântica.
A Mata Atlântica pode ser considerada a prima rica, pois concentra mais de 70% da população brasileira e a maior parte da produção industrial e, consequentemente, é responsável pela maior parte da renda gerada no País. Pensando desta forma, a Amazônia, que ainda mantém mais de 70% de sua cobertura natural, precisa ser devastada para gerar riqueza (para poucos, diga-se de passagem). Para facilitar que o desenvolvimento chegue à região norte do País, uma verdadeira marcha em prol do desmatamento tem sido realizada no senado nacional, sendo a mais nova vedete a Medida Provisória 458 (“MP da grilagem”) que trata da regularização da posse de terras públicas.
As terras públicas são em torno de 13,42% da área total da região. Mais de 670 mil km². Área maior do que o território da França (547 mil km²). Mais do que o dobro da Itália (301 mil km²). O problema é que as terras da União encontram-se ocupadas por posseiros ou por pessoas e empresas que detêm títulos precários de posse. Entre os pontos mais revoltantes, estão as que a União pode transferir, sem licitação, terrenos com até 1.500 hectares, bastando que a terra tenha sido ocupada antes de 1º de dezembro de 2004. Desta forma, as pessoas que infligiram à lei (posseiros, grileiros) poderão ter a posse legalmente reconhecida. A transferência deverá ser gratuita em áreas menores de 76ha em média (depende do Estado), entre outras ações, como prazo de pagamento de 20 anos. Em uma carta aberta ao Presidente Lula, várias Organizações da Sociedade Civil ressaltam que, ao invés de premiar os pequenos produtores familiares, serão premiados as pessoas que ocuparam o patrimônio público e devastaram-no.
Acredito que a solução para a geração de renda de forma bem distribuída poderá ser alcançada na Amazônia a partir de duas iniciativas: a extração sustentável de produtos naturais e o pagamento por serviços ambientais (PSA). No primeiro caso, a colheita de castanhas, resinas, frutos e a extração de produtos da floresta para fins industriais poderão ser uma forma de valorizar a florestas em pé. Os PSA (mercado de Carbono oficial e alternativo, REDD) são uma outra possibilidade que junto com a primeira podem gerar renda por um longo período nesta região, fazendo dela uma prima tão rica quanto a Mata Atlântica, porém com sua cobertura vegetal protegida.
O importante é ressaltar que o desmatamento não é a única forma de gerar renda na região Amazônica. Sendo a pior, pois além de ser baseada na concentração fundiária, desmata-se para a criação de gado ou produção de soja para atender ao mercado externo, ficando a contribuição desta imensa área florestal para a manutenção do clima planetário, e como mantenedora de grande biodiversidade, como fatores de segunda ordem para o “desenvolvimento nacional”.
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