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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sociologia do Shopping Center - II

II – Dos Shoppings de luxo


O padrão nórdico deve preponderar.

Um Shopping de luxo deve, inequivocamente, compor uma ambientação que simule a possibilidade de um Brasil ariano. A mestiçagem não pode sequer ser lembrada. Os seguranças, os faxineiros, os vendedores devem se aproximar tão quanto for possível dos estereótipos da branquitude européia.

Um Shopping de luxo destina-se aos europeus terceiros-mundistas, infelizes em suas condições de párias da civilização branca-ocidental. Narcótico eficaz contra a realidade onipresente das favelas, dos mulatos, das desigualdades e das injustiças históricas. Extensão natural dos condomínios fechados e dos espaços não públicos.

Não há entradas, mas pórticos marmorizados, com singelos e obtusos seguranças de olhares dóceis e subservientes, mas atentos o suficiente para impedir o ingresso dos moleques ousados de feições pouco arianas. Não é um tapete de WELCOME que lhe espera; DO YOU HAVE MONEY? eis a expressão mais apropriada.

Com efeito, um Shopping de luxo leva ao paroxismo a promessa do consumo como potencializador de identidades: os clientes-deuses podem tudo – os assédios morais e sexuais são tão corriqueiros que nem merecem ser citados. Consumidores com semblantes contorcidos, carregados em auto-benevolência intrínseca, criaturas mesquinhas que querem fruir cada prazer disponível e, o mais estranho, fazem questão de pagar por eles. A perversão formidável do consumismo consiste no entendimento de que o gozo deve ser quitado, mas uma vez satisfeita a necessidade (que sequer é uma real necessidade) novas premências se manifestam. Perpetuum mobile do comprar e se extasiar e descartar.

Os antigos mestres-escolas se apiedavam, em suas explanações, da inocência dos indígenas que trocavam pau-brasil por bugigangas. Como esses formidáveis moralistas se posicionariam a respeito das sisudas senhoras-cheias-de-grana-de-boa-família que adquirem liquidificadores ao preço de quatro salários mínimos? Será que os nossos antigos mestres também se revelariam ingênuos para responder – tal qual nossas ilustradas madames ainda argumentam – que se paga pelo design?

Há muito mais sinceridade no posicionamento daqueles que pagam e saem calados, céticos quanto a qualquer viabilidade de auto-justificativa. As bugigangas usadas pelos nativos adornavam seus pescoços e braços, úteis para as danças e festanças do cotidiano, coerente com uma sociedade que fazia da vaidade e do amor pela vida o objetivo máximo. Já um liquidificador ao preço de quatro salários não é um liquidificador, mas sim um semióforo. Prova sua riqueza, mas não esconde sua burrice.

Ou será que nem tanto, já que nos Shoppings de alto luxo os preços seguem outra ordem de grandeza distantes da realidade? Lugar onde os preços usuais são multiplicados por cinco, com exceção dos salários dos vendedores, pois não obstante seus traços arianos, ainda são trabalhadores e merecem a exploração.

Ainda que em um nível mínimo, o Shopping é um espaço que tolera a diversidade, mas em um Shopping de luxo essa possibilidade está excluída. Deve haver uma série de barreiras visíveis e invisíveis que inviabilizem a presença dos populares.

Seus compradores são tão ricos quanto tolos, pois necessitam despender vultuosas quantias para aplacar o vazio do cotidiano e tamponar os receios típicos daqueles que são ilhas endinheiradas em um mar de miséria.

Dignos de pena ou de ódio? Merecem nossa compreensão ou zombaria?

Uma coisa é certa, não fazem parte da solução, consistem em elemento nevrálgico e incontornável do problema. E é nos Shoppings de alto luxo que encontraremos todos reunidos.

III – Dos Shoppings populares
Continua.

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sábado, 30 de janeiro de 2010

Sociologia do Shopping Center

1º capítulo – Definições preliminares


I – Dos shoppings.

É a inversolândia, um esforço abissal para nos convencer de que não existe a pobreza, ou antes, esperança de que por meio de um passe de mágica ela possa se evaporar. Aquela entrada no saguão principal esconde um portal, ruptura entre mundo real e o universo do auto-engano.

A arquitetura pretensiosamente monumental (mas na maioria das vezes de muito mau gosto) intenciona criar um ambiente quase religioso, assim como em uma catedral gótica, o homem deve se sentir diminuto perante o amontoado de mercadorias existentes. Olhar para os céus, não para ver um deus austero e punitivo, mas para reconhecer o severo mandamento do contínuo comprar. O Shopping Center não é sequer atualização dos mercados que prevaleceram durante a Idade Moderna e em épocas anteriores, as trocas comerciais e o suprimento das necessidades básicas ficam em segundo plano, importa, isso sim, valorizar o processo ad infinitun de aquisição.

Aqueles limpos, vigiados e iluminados corredores perfazem itinerários para que os crentes consumidores completem suas procissões, parando em suas vitrines favoritas – relicários com objetos de adoração. O Shopping Center representa o aceite inconteste ao consumismo, o comprar se converte em ato sagrado – “aquilo que nos diferencia dos animais” – nivelador dos homens, oferece a fundamentação para uma compreensão de relação social situada em torno do vender/adquirir.

Para garantir a eficácia desses templos, a verdadeira relevância do mercado precisa sofrer uma inversão. As trocas, por escambo ou por unidades monetárias, não vieram com o capitalismo (nem mesmo se defendermos a tese da sua naturalidade e pré-existência), as pessoas não podem produzir tudo que precisam, portanto, a circulação de bens, mesmo dentro de um regime de propriedade privada, traz uma solução para esse problema.

Comprar e vender não representam, necessariamente, uma deterioração das sociabilidades humanas, acontece que no atual estágio do capitalismo, tais procedimentos ganharam centralidade nas relações sociais, tornando-se elementos fundamentais para a construção identitária dos indivíduos.

Você é o que você compra. Por isso o Shopping Center deve estimular o consumo do supérfluo. As necessidades não devem ser sanadas, somente assim o consumidor regressará continuadamente àquele ambiente. E ele o faz, não por uma coerção, mas sim pelo interesse genuíno de se integrar ao cenário; ao subir por uma escada rolante, mira-se no espelho, repara nas sacolas que trás em sua mão, sentindo-se assim um consumidor, logo, um cidadão.

O homem moderno (ou pós-moderno?) está desesperadamente só e assustado, ele busca seu semelhante, igualmente perdido, igualmente aterrorizado, mas que também anda com pacotes entulhados nos braços. O Shopping Center, portanto, atua como espaço de socialização, de criação de laços sociais, mas com uma especificidade inerente aos tempos doentios em que vivemos.

Você não contata diretamente seu semelhante, trata-se de um reconhecimento puramente visual, passos apressados e trocas rápida de olhares.

“Ele é igual a mim, não estou ficando louco sozinho”.

Com efeito, loucura coletiva e arquitetonicamente explicitada: escadas que não levam a lugar nenhum, vitrines que se prestam ao uso como espelhos (para confundir o auto-reconhecimento com a adoração narcísica), banheiros supostamente mágicos e auto-limpantes – a exploração do universo do trabalho encontra-se camuflada. Em sua reiterada negação das diferenças de classes, o Shopping Center é inversão da realidade, imaginário do Olimpio, oferece aos consumidores a possibilidade de serem deuses.

Panteão que faz coro a nova compreensão de democracia, para banquetear-se com o néctar e com o ambrósio fornecidos pelos fast-foods nas praças de alimentação, basta empunhar a mais poderosa relíquia dos tempos modernos: o cartão de crédito.

II – Dos Shoppings de luxo
Continua.

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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Educação Ambiental e Mudança de Comportamento


*Este texto é uma contribuição do colega Valdir

A Educação Ambiental (EA), tendo por base a alfabetização ecológica, conforme colocada por Fritjof Capra, que é a assimilação de princípios ecológicos para o entendimento dos problemas ambientais e soluções destes, é uma das principais ferramentas para a sustentabilidade planetária. Junto com o desenvolvimento e adoção de novas tecnologias menos impactantes, reduzindo as emissões de poluentes, redução da extração de recursos naturais e uma nova conduta da política, com a valorização das pessoas, principalmente, as menos favorecidas socialmente. É parte inerente da EA a mudança de comportamento, por exemplo, diminuir o consumo, tomar atitudes menos poluidoras (reduzir o uso do carro, dar preferência ao transporte público, comprar produtos mais justos socialmente e de maneira limpa).

Mas, se muitas destas escolhas são dificultadas pela falta de recursos financeiros (os produtos ditos ecológicos geralmente são mais caros) ou usar o transporte público é quase impossível, alternativas para que todos nós participemos do processo de mudança, em busca do desenvolvimento sustentado, existem é possível observarmos isso no dia-a-dia.

Este processo de mudanças começa em nós, adotando a políticas dos 3R’s. Reduzir, Reutilizar e Reciclar, nesta ordem decrescente de importância. Muitas pessoas têm somado um quarto R, Repensar. O importante é ter em mente que não é apenas reciclar, ajudando uma pessoa que cata latinhas de alumínio. A reciclagem de latinhas de alumínio não é uma solução apenas social para a geração de renda, aliás, é uma demonstração das desigualdades sociais, na qual, muitas pessoas têm que viver de subempregos ou na informalidade para sobreviverem. Este também é um ato muito importante ambientalmente, pois reduz o uso de matérias primas e ainda economiza energia elétrica, usada em quantidades enormes na transformação da bauxita em alumínio.

O processo de mudança neste caso está relacionado a dois aspectos. Primeiro: deve-se reduzir o uso das latinhas, usar mais embalagens retornáveis, e antes mesmo disso, reduzir o consumo de refrigerantes, preferindo produtos mais saudáveis. Segundo: mudança de posição da sociedade em relação às desigualdades sociais, pressionando o poder publico, estimulando iniciativas de empresas, do terceiro setor e de cada cidadão, cada uma dentro de suas possibilidades.

Um fato interessante sobre a redução do consumo, é pensar qual é a quantidade de recursos naturais e energia gastos para produzir os produtos que consumimos. A FAO está com uma campanha sobre o uso intensivo da irrigação (utilizada no cultivo de 40% dos alimentos), fazendo com que a produção de uma caloria de comida exija um litro de água. Na campanha, é alertado que para produzir um hambúrguer são necessários 2400 litros de água. Mas pense em outros aspectos relacionados à produção de carne: desmatamento para a formação de pastos e plantio de soja (para exportação, usada na Europa para fazer ração animal); a perda de serviços ambientais e biodiversidade decorrentes disto, o gás metano produzido pelo gado bovino (flatulências e arrotos).

Nas teias alimentares há perda de energia quando a matéria passa de um nível trófico para outro (quando um organismo é consumido por outro), porque somente parte da energia é transformada em biomassa, o restante é gasto com a produção de energia (respiração). Pensando no nosso consumo, quando comemos produtores primários (plantas) estamos absorvendo uma maior parte da energia absorvida do sol do que quando comemos carne, isto é, o desperdiço de energia é menor, quando pensamos no ecossistema. Isto também determina outra conseqüência, as áreas destinadas à produção de produtos vegetais são bem menores do que para a produção de animais, reduzindo os impactos ambientais. Para entender isto, por exemplo, se formos comer soja, uma dada área terá que ser plantada para a produção dos grãos, mas se formos comer carne de gado criado com ração (a base de soja), uma área bem maior de soja terá que ser plantada para nos alimentar com a mesma quantidade de calorias.

Observe quantos problemas podem ser evitados dependendo da nossa escolha na hora de comer. E ainda nem comentei nada sobre a questão ético no fato de comermos carne. Mas continuando no raciocínio do desperdiço, se consumimos mais calorias do que o necessário, além de ser prejudicial à saúde, é também prejudicial ao meio ambiente, pois este excesso de energia consumida é também uma forma de desperdício. Fazendo uma analogia, se você toma um banho longo, ou seja, por um período maior do que o necessário, você está desperdiçando energia, quanto a isto não há duvidas, correto? Quanto ao consumo de calorias, para obtermos este excesso, mais soja terá que ser plantada para nossa alimentação. Agora imagine, se você come muita carne, quanta soja terá que ser plantada para suprir as suas necessidades e ainda o excesso. Estudos científicos têm demonstrado que o consumo reduzido de calorias é um fator que alonga a vida em ratos, aumentando ainda a qualidade de vida destes.

Bom, com estes argumentos, quero mostrar no que acredito. A EA é um caminho para a melhoria de vida de todos e para alcançarmos a sustentabilidade ambiental e social. Mas para isto, cada um não apenas pode, mas deve mudar suas atitudes, tornando-as mais responsáveis sócio-ambientalmente. E por último, como já dizia Paulo Freire, reforçado pelo Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, a educação é um ato político!

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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Amamos muito tudo isso!



Dos grandes templos às humildes vendas.

Amamos muito tudo isso.

Amamos.

No luxo extremo vemos as Grand Magazines.

Locais esmerados onde prevalece o topo da cadeia alimentar do consumo.

Os Shoppings Zonas sul, onde são todos loiros, até as garçonetes, até as seguranças, inclusive as moças que cuidam da faxina. É o sonho nórdico, as indiscretas atualizações da ideologia nazista. É para lá que os burgueses afluem, levando suas companhias, naqueles templos do efêmero salários mínimos são gastos em intervalos de minutos.

As belas vendedoras, que atendem tão educadamente os barões e as baronesas do capital, sempre sorriem. Mas no fundo daquela gentileza há um ódio infinito e secreto, silencioso.

Amamos muito tudo isso.

Há alguns requisitados restaurantes Class A cujos atendentes ficam às portas do estabelecimento em dias de chuva, portam guarda-chuvas para assegurar que os clientes (Deuses) não se molhem. Os garçons se encharcam, mas preservam a integridade dos consumidores. Um nobre francês do século XVIII sentir-se-ia em casa nesse lugar.

Amamos muito tudo isso.

Nos shoppings populares as pessoas se esmagam na busca sísifa pelo nada e pelo nenhum. O novo aparelho de celular é comprado, consolo momentâneo para o baixa renda que busca no mercado pirata a consumação do seu sonho consumista. Meses depois estará novamente insatisfeito. O aquecimento da economia agradece.

Amamos muito tudo isso.

O capitalismo é bom. Inerente ao homem. O ser humano tem predisposição para a atividade comercial direcionada ao lucro. Essa teologia tinha seu charme no setecentismo, trajando vestes iluministas e prometendo a emancipação perante o intervencionismo absurdo das grandes cadeias de poder. Seus prosélitos agiram de boa fé, divulgaram aos quatro cantos do mundo as benesses do capitalismo.

Diziam pacientemente para os nômades africanos, e em voz até infantilizada, que livre comércio era o único caminho para a felicidade. Convenceram os chineses de que a única sacralidade digna de nota seria a libra esterlina. Abordaram os aborígines da Oceania e discorreram sobre a relevância existencial do ato de comprar e vender.

Divulgaram o evangelho do lucro e prometeram a felicidade. Nada sabiam sobre a destruição do bioma, a extrema exploração dos menos válidos e da crise existencial inerente ao ato insano do consumismo.

Agiram de boa fé, ainda que com uma malícia experimental. Séculos mais tardes, desacreditados por catequizadores bem mais engajados e articulados (homens barbudos, sisudos, com lenços e polainas vermelhos), acabaram por se tornar menos elegantes em suas argumentações. Alteraram o discurso, não se tratava mais de uma busca pela felicidade, mas sim de uma imperiosidade da história, uma tecnicidade, entregar-se ao capital não era uma escolha, mas uma obrigação.

A romântica inocência dos adeptos da Escola Clássica deu lugar ao sarcasmo amargo dos neoliberais. Alguns descobriram a futilidade de se dialogar com os mineiros, tornou-se mais viável ignorar seus lamentos.

Por algumas décadas eles reinaram, e a cada gemido do mundo arrotavam. As cifras estavam a seu favor. Porém, o tempo das vacas magras chegou, alguns mortos acordaram, fantasmas ameaçadores passaram a visitar os sonhos dos que nunca choram.

Os neoliberais se ajoelharam perante o panteão e imploraram pela intervenção: “Ex Machina, ajude-nos”. Foi um lampejo, mas o suficiente para que perdessem a compostura. Sentiram-se envergonhados, tal qual o apaixonado que por um rompante romântico declara o amor para uma indiferente dama.

Constrangimento. “Tudo segue como antes”, disseram, “o mercado é nosso guia, confiem nele, ele nos guiará à felicidade”. O mundo olhou com um ar incrédulo e reprovador. Ficou evidente a covardia e a inépcia desses pastores, desses condutores de almas. Mais do que nunca estão solitários. O ódio de muitos se volta contra eles. Há um olhar homicida dos pobres, do primeiro e terceiro mundo. Os enganados, os despejados, os famintos, os que fedem a mijo, eles querem acertar as contas, querem tudo que foi prometido. Alguém disse carnificina? O Alto Clero do capitalismo está aterrorizado.

Amamos muito tudo isso.

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quinta-feira, 30 de abril de 2009

O Trabalho Liberta! Será mesmo? (parte 01)


Trabalho e Consumo. São os dois nós que detonam a possibilidade de uma sociedade mais justa, autônoma e sustentável. E nesse fatídico 1º de maio, em que a sociedade do trabalho se vê numa de suas piores crises, pretendo fazer um exercício de desconstrução desse que consiste no maior e mais bem enraizado absurdo tido como óbvio: o Trabalho (em outra ocasião discutirei a questão do consumo).

“Mas como assim? Como poderia o trabalho ser um empecilho à uma sociedade virtuosa? Ele é o nosso próprio ser! O que seria de mim sem o trabalho? É o centro de referências da minha identidade! É o que me mantém! É o único caminho possível para a felicidade!”

Nos primeiros contatos com textos que fazem uma crítica radical ao trabalho, não compreendi bem qual era ponto. Parecia coisa de vagabundos que queriam ficar à toa o dia todo, ou de intelectuais de gabinete que ganhavam 10.000 e ficavam pensando em merdas ao invés de fazerem algo que prestasse. Mero engano...a pretensa ‘indispensabilidade do trabalho’ é algo tão assentado em nossas vidas, tão intocado no mais profundo de nosso ser, que a primeira sensação de crítica a ela surge como um sacrilégio. Mas pensemos com mais calma...

Se no século XVI, um cidadão europeu chegasse para sua esposa e dissesse: “Será mesmo que Deus existe?” Muito provavelmente as conseqüências disso seriam 1)“Meu marido está louco” (dado ser pergunta sem o mínimo sentido naquela ocasião) e 2)Fogueira. O tempo passou, vieram o Movimento Iluminista, a Razão e o Humanismo e, depois de muitos assassinatos, torturas e perseguições, a idéia de um Deus como razão de nossa existência foi por água abaixo. Não estou fazendo aqui uma ode ao ateísmo, mas apenas colocando que, no mundo moderno, Deus ocupa só o espaço da porta da sua casa pra dentro, ou seja, ele deixa de ser algo totalizante, que explica, julga e governa a todos.

O problema disso tudo é que a “morte de Deus” não deixou a humanidade mais livre, já que o homem moderno criou para si outro deus, que substituiu o recém chutado: o Trabalho.

No mundo moderno, que habitamos, o Trabalho virou algo portador de um fim em si mesmo. Você trabalha porque...tem que trabalhar uai! Inicialmente, lá nos idos dos séculos XVII até o XIX, isso não era normal, de forma que foram necessários, novamente, assassinatos, torturas e perseguições, para que fosse aceita a férrea disciplina do trabalho voltado para a produção de excedente, a privatização da terra e das fábricas e a conversão dos camponeses ligados à terra em mão-de-obra barata, disciplinada, obediente e idiotizada – como somos hoje, idiotas!

O ponto central da crítica é o seguinte: trabalhamos, trabalhamos e trabalhamos pra gerar acumulação e valor somente (e isso acontece tanto no paraíso capitalista do consumo inveterado, quando no inferno comunista/socialista das planícies russas e chinesas ou dos charutos cubanos). E pronto! A ligação dessa produção com nossas reais necessidades e com uma relação decente junto ao ecossistema não importa em nada! A roda da economia tem que continuar girando e foda-se todo o resto!

As grandes cidades estão inviáveis. O infeliz perde 4 horas diárias da sua vida, durante 40 anos, indo e voltado do seu emprego (onde produz cabeças de alfinete), e acha isso normal. Não se consegue deslocar e nem respirar; a morte por atropelamentos é a terceira em quantidade no mundo; blocos de gelo com 8 vezes o tamanho de São Paulo se soltam da Antártida e, no fim do dia, assistindo ao Jornal Nacional ouvimos: “O Brasil já pode comemorar, a produção de carros está voltando a crescer e novos postos de trabalho foram criados. A crise vai passar.”! Vai passar!?! Que miopia é essa!?! Estamos no olho do furacão!! E achamos toda essa merda normal!! Isso é o que mata!!

Essa é uma lógica cíclica, idiotizante, que o Estado e o detentores do Capital, com anuência dos Sindicatos de trabalhadores que, dizem, proteger nosso direitos, criaram para se sustentarem. Pense comigo, Estado e Capital, na verdade, se legitimam administrando uma crise que eles próprios criaram. Quer exemplos? As sociedades indígenas clássicas, sem Estado, não conhecem o conceito de ‘fome’! Quem gera a violência do tráfico não são os usuários, mas a proibição do consumo veiculada pelos poderes públicos e privados! Nunca uma política de limpeza étnica poderia chegar ao grau de eficiência que muitas chegaram no século passado, e ainda nesse, sem o apoio de imensas máquinas estatais e bélicas que fragmentam e financiam todo o processo, e por aí vai.

Vivemos no mundo do trabalho alienado, sem finalidade fora de si, sem apego com as nossas vidas reais, sem um sentido realmente legítimo e justificável...produz-se, mais e mais e pra quê? Só pra eu ter a liberdade de escolha entre 15 marcas de sabão em pó na estante do supermercado!! Grande merda!! Ah, e claro, pra que possamos escolher o tarja preta mais forte de todas, a fim de nos mantermos dopados, já que é muito difícil encarar de cara limpa essa vida medíocre e insignificante que levamos: de bater ponto e viver em engarrafamentos.

Por mais que, lendo esse texto, continue me achando um otário, tenho certeza de que no íntimo você sente que o trabalho é uma praga. De que já imaginou a sua vida sem essa prisão...todos sentimos isso! O trabalho é tão desapegado dos nossos anseios, que é comum ouvir dizer que, quando o alarme toca às 6 da manhã, o corpo vai pro serviço, mas a alma fica em casa. É Marx que fala isso de forma convincente:
O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si. (...) Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer; foge-se dele como se fosse uma peste. (Marx, 1844)
Agora, em que se particulariza esse momento que vivemos? O ponto é que a sociedade do trabalho chegou ao seu extremo. Mesmo assim, só pensamos em sair da crise criando mais empregos! Nunca estivemos tão longe do pleno emprego, estamos sendo acostumados a viver vidas extremamente instáveis, medrosas e incertas. Não se consegue planejar a vida pra além de meses! Você tem que aceitar qualquer emprego, mesmo sendo o mais infundado e degradante, pois só é visto como ser humano se tem um “trabalho digno”.
Mesmo passando por esses perrengues, somos escrotos e burros a ponto de afirmar que quem não trabalha não merece comer nem viver – pois ninguém quer pagar bolsa família para ‘vagabundos’. Conforme está no ótimo Manifesto Contra o Trabalho, do Grupo Krisis: “O incômodo do ‘lixo humano’ fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres.”. Só porque alguém tem um emprego de merda, sente-se mais digno do que o resto. Nessa lógica, atiramos em nosso próprio pé, pois quem não trabalha é considerado supérfluo, refugo, falha do projeto, devendo ser tirado de circulação, colocado bem distante dos nosso olhos burgueses, deixados para fora das fronteiras, encarcerados em prisões ou albergues lotados e imundos do governo – não precisando de nada mais do que um investidor em ações acordar de mau humor pra que você perca seu lindo empreguinho. Sem contar o inferno que tem que suportar durante toda a vida pra manter essa aparências das coisas.

Mas a questão é que ninguém percebe que se deve lutar contra essa sociedade do trabalho: direitas e esquerdas, governo e oposição, sindicatos patronais e laboriais...todos querem injetar gás na máquina e gerar outro ciclo de expansão e crescimento das força produtivas. Quase tudo justifica a procura ou a criação de novos postos de trabalho, por mais ridículas, constrangedoras, socialmente inúteis e desprezíveis que estes possam ser...o que vale é estar ocupado e a manutenção da “roda da economia” funcionando.

Isso acabou! O meio ambiente está prestes a explodir, não há mais para onde os mercados expandirem e, para manter a roda do consumo, escraviza-se cada vez mais o trabalhador a fim de se conseguir produtos baratos. (Para você melhor entender essa crise, leia o tópico 11 do Manifesto Contra o Trabalho, disponível para download no fim do post).

Agora, não sejamos cínicos. A crítica à ideologia do trabalho deve se fundamentar numa perspectiva não só realista, mas também prática. Primeiro, não devemos esperar que as pessoas, amanhã, deixem de ir trabalhar. Todos estão presos a essa lógica, dependemos dos nossos empregos de bosta pra viver. Deixamos que as coisas chegassem a esse ponto, e desconstruir isso vai doer! Temos que refazer a economia sob outros princípios, voltados não para o atendimento dela mesma, mas sim das nossas necessidades materiais e espirituais reais. Por favor, posso ser um otário, mas não duas vezes...o fim do trabalho, como entendemos, não significa o fim da interação homem X natureza...isso é impossível! Sempre será preciso plantar, construir e o caralho...A questão é re-significar essa relação, acabando com o trabalho por si mesmo...alienado!

Abre-se aqui espaço para a discussão de novas estratégias, criemos formas embrionárias de emancipação social contra as forças sugadoras do Capital e do Estado (aquelas podem nascer como cooperativas autogestionárias de educação, moradia, saúde, alimentação etc., a própria pirataria, que tanto defendemos aqui no Blog do C.I.S.C.O., é uma nova forma de lidar com os produtos culturais).

As lutas defensivas dos trabalhadores, ainda internas ao sistema, não devem ser abandonadas, pois alienaríamos a própria crítica do trabalho das condições atuais dos trabalhadores. No entanto não devemos parar aí, mas conectá-las num movimento de recusa do trabalho também. Como poderia isso ser feito? Alguns falam em um reforço temporário do próprio Estado por meio de pressões mais profundas da sociedade civil, seria esse um caminho? Vamos discutir!

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Aqui encerro a primeira parte desse post, pois já está ficando demasiado grande! Como você pode ver na seção “Quem Somos”, uma das prerrogativas básicas do C.I.S.C.O. é ir além da crítica pela crítica. Portanto, na segunda parte desse post, falarei de estratégias práticas, reais e atuais, que vêm sendo feitas nesse sentido de crítica ao trabalho.


Saúde e Anarquia!!

Grupo Krisis – Manifesto Contra o Trabalho

Grupo Krisis – Manifesto Contra o Trabalho em Mp3

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