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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Viva Zapata! (Parte 03)



De acordo com pesquisas de opinião, os Zapatistas são visto com simpatia por grande parte da sociedade mexicana, algo de extrema importância para um movimento social na atual era informacional. Basta pensarmos o quanto movimentos como o MST, pra ficar no exemplo mais óbvio, seriam muito mais fortes e determinantes do rumo político do país se a situação deles fosse semelhante àquela. Infelizmente, por diversas razões que não cabem aqui, parece que estamos cada vez mais longe dessa realidade.

Em 1995 foi feito o primeiro de numerosos plebiscitos, em todo o México, questionando, entre outras coisas, a possibilidade do EZLN vir a se tornar uma força institucionalmente constituída e se aliar a outros grupos a fim de construir uma frente ampla de oposição. A consulta foi favorável à idéia, mas por pequena margem. Mesmo assim, os Zapatistas decidiram não largar as armas enquanto as negociações não avançassem. A institucionalização não saiu e o EZLN manteve-se longe dos poderes constituídos.

Abaixo, as perguntas feitas à população por meio da Primeira Consulta por la Paz y la Democracia (1995). São constantes os plebiscitos organizados pelo EZLN:

Segundo o sociólogo M. Castells, o EZLN pode ser visto como o primeiro movimento de guerrilha informacional, por ter como munição primordial não as balas de AK-47 ou de fuzis, mas sim o uso inteligente da informação numa sociedade…de informação. Castells cita especialistas que já previam a possibilidade desse tipo de contestação via “guerra informacional” desde o início da década de 1990: “Cada vez mais, as forças do futuro podem consistir de redes multiorganizacionais amplamente difundidas e desprovidas de uma identidade nacional particular, que aleguem terem como origem a sociedade civil, e incluam grupos e indivíduos agressivos, ardorosos defensores do uso de tecnologia avançada para a comunicação, bem como para a munição.”

A partir da VI Declaração da Selva Lacandona em 2005, a última delas até então, uma nova fase é inaugurada no zapatismo. A FZLN é dissolvida, sendo criada a chamada “La Otra Campaña”, atuante até hoje, onde se busca escutar todo o povo mexicano e de quaisquer lugares no contexto das mais diversas organizações ou fora delas. A idéia é buscar uma aproximação com todos grupos excluídos e à esquerda, que tenham como base o anti-capitalismo, o horizontalismo entre outros valores a serem melhor definidos no andamento do processo. Fica explícito, no documento, o distanciamento dos três principais partidos do espectro político oficial mexicano, criticados asperamente por Marcos, que também afirma que a construção de um novo projeto para o país passa muito longe do apoio a qualquer uma das chapas. A coligação contas com cerca de 334 organizações sociais e mais 136 grupos indígenas só no México.

Atualmente, não saberia citar outro caso tão bem sucedido de organização de um movimento social que luta, por demandas históricas. Tudo isso num contexto de globalização, descrédito de tudo o que não vá ao encontro das teses neoliberais, acirramento dos conflitos “tradição X modernidade”, da proclamação do fim das esperanças e das grandes narrativas libertadoras, da radical fragmentação das identidades, da sociedade informacional de rede, e de imposição de um clima de “fim da história” – onde não resta nada a ninguém, a não ser estudar, trabalhar, ser um empregado disciplinado e um consumidor responsável e exemplar ‘para subir na vida’. De acordo com esse discurso, nada restaria aos camponeses indígenas Zapatistas, dado que estão isolados demais para ter sua força de trabalho barata explorada, bem como pobres o bastante pra não serem considerados como um mercado consumidor em potencial.

É bastante claro que o Zapatismo não se resume numa ideologia. Alguns dizem que é uma Intuição. Nesse contexto, é interessante perceber que os Zapatistas têm uma preocupação com os efeitos do neoliberalismo em outros locais do mundo, mas sabem que a resposta dada aos seus problemas é fato essencialmente ligado à sua historia e situação. O Zapatismo lança a questão: “O que é que me exclui?”, “O que me isola e segrega”, sabendo que as respostas à esses problemas variam de lugar para lugar e de tempos em tempos. Ciente disso, o Subcomandante Insurgente Marcos estabeleceu a seguinte máxima Zapatista: “Todos nós somos iguais porque somos diferentes”. E na medida em que o Zapatismo se apresenta como uma ‘Intuição’ disforme, que dribla rótulos simplificadores e fechado, é que mostra o seu potencial transformador e adaptável às mais diversas realidades. Foca-se, exclusivamente, a sociedade civil organizada, a construção do poder de baixo para cima.

Aqui Marcos reforça essa idéia, ao abordar particularidades da organização dos municípios que fazem parte do movimento junto de visitantes que foram a Chiapas ver deperto o que estava acontecendo na Selva: “Além de nossa aversão ao poder, há outra característica essencial do Zapatismo – que vocês conhecerão aqui, nessa visita, ou se tiverem contato com os Conselhos Autônomos e com as Juntas de Bom Governo (...) nós Zapatistas renunciamos a qualquer tentativa de hegemonizar e de homogeneizar a sociedade. Não queremos um México zapatista, nem um mundo zapatista. Não queremos que todos passem a viver como se fossem indígenas de Chiapas. Queremos viver num lugar, aqui, nosso lugar. Que nos deixem em paz. E que ninguém tente mandar em nós. Assim entendemos a liberdade: que nós decidamos o que queremos fazer. E pensamos que isso só é possível, se outros, como nós, desejarem o que desejamos e lutarem pelo que lutamos. Isso é o que La Otra Campaña quer construir. Isso é o que a 6ª Internacional deseja ser. Um encontro de rebeldias, uma troca de saberes e uma relação direta, não midiática mas real, de apoio entre grupos.”

Guga Dorea, cientista político e jornalista brasileiro, pesquisador do Projeto Xojobil, que possui uma série de produções sobre o EZLN, enfatiza esse caráter inovador proposto por Marcos: “Como têm dito insistentemente os zapatistas, não importa quem esteja no poder. Não se trata também de pensar que um suposto voto consciente venha redimir a já falida democracia representativa, além de imaginar que uma simples mudança revolucionária no tabuleiro do xadrez traga a redenção na terra. O fundamental é que a sociedade civil esteja sempre alerta e resistente. A transformação social (...) só virá com a organização autônoma dos "de baixo" e não com "os de cima" – os que se proclamam detentores de uma verdade dogmática inquestionável e irredutível, apontando para uma inexorável luz, muitas vezes profética, no final do túnel.”

Mas, a despeito de questões teóricas e filosóficas, em que pé anda a situação do EZLN?

Em 2006, um dos candidatos à presidência no México, Lopez Obrador, do PRD, procurou fazer uma ampla frente de oposição aos tradicionais partidos de direita que vinham governando o México há cerca de 80 anos: o PRI e o PAN. Alguns analistas colocaram que a formação desse bloco chegou a eclipsar o EZLN como a principal força de oposição esquerdista no país. A sensação de esperança e redenção cresceu bastante no México, e os ânimos ficaram muito animados em torno de Obrador. No entanto, houve um áspero debate sobre a possibilidade dos Zapatistas apoiarem a aliança,no que, certamente, selaria a vitória do PRD. O apoio não saiu, e Obrador perdeu as eleições por uma margem de pouco mais de 0,5% dos votos – lembrando, ainda, a comprovação de uma série de fraudes no processo eleitoral, mas tudo acabou em pizza.

A crítica que foi feita aos Zapatistas, é que eles teriam perdido a oportunidade de, pela primeira vez, fazer com que um partido de esquerda assumisse o poder. No entanto, as justificativas do Subcomandante Marcos resgataram razões bastante interessante para não apoiar a aliança. Em 1996, quando das primeiras negociações entre o governo e os então recém sublevados de Chiapas, as promulgação de uma série de leis que protegeriam a zona autônoma zapatista, bem como criaria uma série de direitos para os povos indígenas, foi vetada no congresso nacional justamente com apoio de quem? Isso mesmo! Lopes Obrador e o PRD. Além disso, Marcos se referiu a entrevistas cedidas por Obrador durante a campanha onde ele assegurava a continuidade da política macroeconômica no México.

Na verdade, desde 2001, quando se deu uma completa desvirtuação em relação a outro projeto que seria votado a fim de estabelecer a chamada Lei Indígena no Congresso Nacional, o EZLN rompeu definitivamente as linhas de diálogo com o Estado – o que só ficou mais claro com a rejeição ao apoio à candidatura de Obrador, bem como a todo sistema político partidário mexicano.

O problema é que o EZLN acabou sendo acusado de fazer o jogo da direita e, na prática, foi isso que acabou acontecendo. Ouviu-se até o boato de que a cúpula zapatista estava rachada sobre essa questão do apoio ou não a Obrador. Inicialmente Marcos se posicionou a favor do voto nulo ou da abstenção eleitoral mas, depois das críticas, chegou a fazer referências à importância da população ir às urnas. Essa nova postura levou uma aproximação entre eles e uma série de outros movimentos sociais, indígenas inclusive, que antes mantinha reservas acerca postura dos autonomistas de Chiapas. Na verdade não chega a ser uma posição ‘anti-zapatista’ desses movimentos, a querela é mais voltada à questão tática propriamente dita. Pois segundo líderes desses outros movimentos, a chegada do PRD ao poder poderia significar uma diminuição das pressões sobre os movimentos autonomistas, abrindo margem para que estes ampliassem e melhorassem suas bases de organização. É uma jogada polêmica e incerta, basta ver que no caso de alguns países sul-americanos onde as esquerdas – pelo menos no nome – chegaram ao poder, viu-se muito pouco progresso em relação às questões sociais, pra não falar até de um certo enfraquecimento e fragmentação das esquerdas.

Nesse sentido, continua forte os movimentos pela La Otra Campaña em prol de uma aproximação com outras forças prezando pela reformulação do sistema político, pela confecção de outra Constituição, pela autonomia dos povos e por um poder construído de baixo. Dessa forma, mantêm-se as práticas originárias do movimento: “As comunidades criam seus próprios programas de educação, de saúde, de comercialização, constituindo pequenas mercearias e cooperativas. Não aceitando o dinheiro nem os projetos do governo, elas definem de maneira crítica seu tempo contra a mercantilização, enfrentam o discurso da mundialização por meio das lembranças e lendas indígenas.” Foi feita a opção pelo poder local, mas até que ponto, no modelo em que vivemos hoje, isso não acaba correspondendo a um martírio para as pessoas que fazem parte do movimento? Como lidar com centenas de pessoas miseráveis sofrendo com os boicotes e bloqueios, de várias naturezas, impostas pelo governo.

No entanto, apesar de tudo, é indiscutível que o discurso Zapatista, para além das montanhas de Lacandona, perdeu um pouco do fôlego. Sem contar que passa, agora, por um certo isolamento dentro do próprio México, pelo menos no quesito solidariedade porque, no que toca à repressão, essa ainda é constante tanto por parte das tropas federais quanto dos grupos paramilitares que, não raro, atuam conjuntamente. Teria o EZLN perdido uma oportunidade? Ou de fato a manutenção de sua proposta foi algo mais válido? Essas são perguntas do mundo político difíceis de se responder. O que será que vale a pena?

Em suma, pode-se afirmar que não existe hoje outra iniciativa vitoriosa como a que vimos, que questiona tão profundamente não só os elementos centrais do capitalismo, mas também toda uma tradição do que significa, e por onde caminha, a história em nossos tempo.

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No próximo post disponibilizarei uma série de links interessantes sobre essa questão, e que me foram bastante úteis na elaboração desse texto.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Viva Zapata! (Parte 02)



As pretensões do EZLN são alvo de muitas discussões. Uma das mais polêmicas é a dúvida sobre a intenção, ou não, de tomada do poder – o que acaba levando a discussão para debates do tipo “Até onde é um movimento de caráter libertário ou marxista” etc. Mas o ponto é: as múltiplas práticas e discursos desse movimento não nos permite uma classificação simples, pois vemos lá: ação direta em diversos setores, elementos reformistas, ações armadas, propostas subversivas, preocupações com questões culturais, ciberativismo, plataformas contra-culturais, anti-globalização, crítica ao poder centralizado, ecologismo, anti-capitalismo etc. A despeito disso tudo, entretanto, pode-se concluir sem maiores dúvidas: de forma alguma o Zapatismo se resume num projeto de poder, se é que ele possui essa ambição – até porque, como já disse Marcos: “Esquerda institucional é ficcção”.

Não existe uma clareza das propostas políticas dos Zapatistas. Numa altura do documentário “Zapatistas”(link/download), de 1999, Marcos afirma que “Não queremos derrotar um governo para nos colocar no seu lugar. O que queremos é que se abra um espaço democrático onde a sociedade pode participar e decidir que rumo político vai ter.”

Ou seja, qualquer discussão que tente delimitar a doutrina Zapatista é perda de tempo porque, simplesmente, ela não existe como algo pronto – ela se faz a cada momento e em cada lugar, daí a força e a validade desse movimento na inspiração de outros levantes em qualquer parte do mundo, bem como numa proposta de reinvenção da esperança em tempos de morte das grandes narrativas humanistas.

Tal discussão a respeito do poder tornou-se ainda mais polêmica quando da IV Declaração da Selva Lacandona, quando o EZLN criou a Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN), movimento civil, social e político – não militarizado – cujos membros não concorreriam a cargos eleitos pelo povo ou governamentais – dado não ser a tomada do poder a expectativa do movimento, diriam eles próprios na ocasião. A intenção era pressionar, de vários lugares, o governo mexicano e angariar mais apoio nacional e internacional para os insurgentes. Ainda criticavam o sistema de partidos políticos do Estado, e defendiam uma nova Constituição que defendesse a Justiça, a Liberdade e a Democracia, não apenas no seu viés eleitoral – mas uma democracia em que quem mandasse, devia fazê-lo obedecendo. O EZNL quis, assim, ser reconhecido como uma força política. A fim de lutar localmente e influenciar mundialmente os embates em defesa dos direitos políticos e sociais que vem sendo destruídos pela onda neoliberal.

Por meio do FZLN criaram-se dezenas de coletivos e grupos por todo o país, e continentes, que tinham como objetivo discutir e divulgar as propostas dos Zapatistas. O que o EZLN fez foi reestruturar a forma de fazer política longe dos paradigmas ‘estadocêntricos’ que vinham dominando a esquerda global há muito tempo.

Ainda sobre a questão do poder, Marcos colocou: “…houve uma mudança na posição do EZLN, a respeito do problema do poder. E essa nova posição sobre o problema do poder é a mudança que, dali em diante, mais fundo marcaria o caminho zapatista. Não nos demos conta, no primeiro momento – e quando digo "nós", somos todos, o grupo inicial de guerrilheiros e os povos das comunidades –, que as soluções, como tudo nesse mundo, constroem-se de baixo para cima. Toda nossa proposta anterior e toda a proposta da esquerda ortodoxa, até então, era o contrário disso: toda a esquerda ortodoxa sempre trabalhou na direção contrária; sempre trabalhou para resolver as questões, de cima para baixo. (…) Essa mudança, de baixo para cima, significava para nós não nos organizar nem organizar as pessoas para irem votar, nem para fazerem uma passeata, nem para gritar palavras de ordem; significava nos organizar para sobreviver e para converter a resistência em ocasião para todos aprendermos. Isso foi o que fizeram todos os companheiros, não o EZLN original, aquele pequeno grupo inicial, mas o EZLN já modificado pelo componente indígena.” E ainda: “(…) continuamos dizendo o que sempre dissemos: não nos interessa o poder; não queremos o poder; acreditamos que as coisas se constroem de baixo para cima.”.

Essa aversão dos zapatistas à política circunscrita à esfera do poder é fonte de outras polêmicas também, sobretudo frente a outros movimentos sociais, bem como junto a outros grupos guerrilheiros mexicanos que mantêm o projeto de tomada violenta do aparato estatal. A segunda guerrilha mais poderosa do México, o EPR – Ejército Revolucionário Popular – tece fortes críticas às concepções defendidas pelo EZLN e proclamadas pelo Subcomandante Marcos. Entre as críticas, destacam-se as que recaem sobre o fato do EZLN ter abandonado a luta armada de caráter ofensivo bem como ter estabelecidos linhas de diálogo com o governo (como foi o caso, por exemplo, do apoio Zapatista à aprovação de leis que reconhecessem a autonomia dos territórios indígenas). Fala-se também que os Zapatistas estariam mais preocupados com a comunicação do que a revolução propriamente dita.

Sem querer puxar a sardinha pro lado dos Zapatistas, mas já o fazendo, não posso deixar de lado a interessante informação de que, de todas as guerrilhas mexicanas atuantes hoje, e aí estou trabalhando com algo na casa dos 25 a 30 grupos, o único que não tem nenhum tipo de envolvimento com narcotráfico, práticas terroristas, seqüestros e assalto a bancos como forma de financiamento das campanhas e coisas do gênero são os próprios Zapatistas. Vê-se, desde aqui, que a proposta desse grupo consiste, definitivamente, em algo inovador. Já que consiste num movimento que não uso a dignidade humana como meio, mas sim como fim.

Voltando ao ponto; nos chamados “Encontros Intergalácticos”, organizados pelo EZLN e simpatizantes, e que reúnem tendências as mais variadas possíveis da esquerda mundial, já realizados no México e em várias cidades da Europa, decidiu-se pela organização de redes intercontinentais sem mando centralizado, nem hierarquia, fundamentada nas novas mídias digitais, contra o lado pernicioso da globalização: o neoliberalismo. Um dos resultados práticos desses encontros foi o estabelecimento da AGP – a Ação Global dos Povos – que, como se sabe, esteve e está envolvida em manifestações anti-globalização por todo o mundo.

Inclusive, vale a pena destacar esse último elemento, que é a fato dos Zapatistas estarem, desde o início, extremamente afinados com as recentes tecnologias comunicacionais, fazendo da internet um aliado poderosíssimo desde o levante em 1994 até então. No site do EZLN, você tem acesso a vários tipos de informações, bem como pode assinar a newsletter que mostra, quase que diariamente, as constantes investidas do governo, da polícia, do exército e de grupos paramilitares, visando o enfraquecimento, a intimidação e desestruturação do movimento. Para se ter uma idéia dessa pressão, hoje mais da metade do exército mexicano está acampado no entorno dos setores Zapatistas, cometendo todo tipo de violência e barbaridades.

Existe uma política de intensa pressão e intimidação, via criação de um clima constante de medo e insegurança, pelas forças militares que cercam a região, impondo à população civil o clima de uma verdadeira Guerra de Baixa Intensidade ( ou Guerra de Fricção), bem como medidas de cooptação do movimento, que visam esvaziar o apoio da população ao EZLN. Impede-se que os civis façam as atividades mais básicas, como trabalhar, por exemplo. Nesse processo, grupos paramilitares, ligados a políticos priistas locais, proprietários de terra e algumas comunidades sob domínio desses, usam de todos os expedientes disponíveis, inclusive os que passam por cima dos Direitos Humanos e pela Convenção de Genebra. Para se ter uma idéia do aparato envolvido nessas ações, além da polícia e do exército que, em função de mudanças legislativas, agora atua na defesa interna também, veja a lista dos principais grupos que lutam contra os Zapatistas: Máscara Roja, Paz y Justicia, Los Chinchulines, Los Degolladores, Alianza San Bartolomé de los Llanos, Fuerzas Armadas del Pueblo, Movimiento Indígena Revolucionario Antizapatista, Tomás Muntzer, Los Tomates, Los Quintos, Los Plátanos, Los Chentes, Los Puñales, Justicia Social, Organización Clandestina Revolucionaria e Los Aguilares. (Vide Mapa)

O apelo midiático também auxilia na difusão da mensagem zapatista, bem como impede que tudo se arraste para uma guerra civil direta e violenta – pois por meio da internet é possível o reconhecimento e a fiscalização pelas comunidades nacional e internacional sobre o que se passa na Selva Lacandona. A implantação de um rede virtual em Chiapas em meados de 1993 (a La Neta!), colocou on-line as ONG’s que trabalhavam na região, inclusive algumas voltadas para a questão dos Direitos Humanos. Por meio dessa tática, conseguiram forçar a negociação de paz, até porque a luta armada não faz parte da proposta, bem como a conquista de uma série de reivindicações bastante razoáveis: a reforma eleitoral do viciadíssimo sistema mexicano (que culminou com a perda do poder por parte do PRI, nessa situação há 70 anos), melhoria das condições de saúde na região, reforma educacional incluindo as mais de 30 línguas indígenas no ensino, a implantação de um governo autônomo dentro do estado de Chiapas e a criação de um estado de constrangimento em vários aspectos no contexto das negociações do Governo Mexicano junto do seus parceiros no NAFTA e outros organismos internacionais como FMI e BID.

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Viva Zapata! (Parte 01)



Não só na minha modesta opinião, mas segundo numerosos analistas mundo afora, e como os próprios fatos vêm mostrando, o auto-entitulado Ejército Zapatista de Libertación Nacional – EZLN – é o que existe de mais interessante e revolucionário (sem medo de ser piegas ou tachado de ultrapassado) que hoje se apresenta nesse belo planeta azul onde vivemos. Falar do Zapatismo é coisa que já devia ter sido feita aqui no Blog do C.I.S.C.O. mas, dada a complexidade da questão, só agora pude reunir energia para estudar um pouco mais esse movimento que vem oxigenar a forma como a atualidade pensa o ‘fazer político’. Dessa forma, nos meus próximos posts, dedicar-me-ei a falar sobre e refletir acerca desse fantástico processo-eternamente-por-se-fazer em que consiste a, creio que assim posso chamar, como eles mesmo fazem, Intuição Neo-zapatista.

1º de janeiro de 1994, 3000 homens e mulheres, armados, tomaram controle das principais cidades no entorno da selva Lacandona – Estado de Chiapas, no México. As forças são compostas majoritariamente por índios de várias etnias, e uma minoria de mestiços – entre eles o porta-voz do movimento, o Subcomandante Insurgente Marcos. Os governos Estadual e Federal enviam reforços militares, no número de três para cada insurgente, que entram em choque com a guerrilha, ocorrendo uma série de baixas de ambos os lados. Apesar disso, a guerrilha consegue uma retirada vitoriosa para dentro da floresta. Essa ação estava enraizada há pelo menos duas décadas de organização política e social entre as comunidades de pequenos camponeses de Chiapas e Oaxaca,estado vizinho. Essas pessoas foram assentadas na região em meados das décadas de 1930/40, como parte da solução para uma crise gerada em função da expulsão dos chamados acassilados (camponeses sem terra) das grandes fazendas de outras localidades do país. No entanto, nunca contaram com algum tipo de apoio ou segurança, sob um contexto em que a política fundiária flutuava sempre ao sabor dos interesses do grande capital, do governo e de oligarquias locais. A partir de então, vê-se uma sucessão de perdas dos direitos e patrimônio dos camponeses, indígenas e mestiços da região – que corresponde ao setor mais pobre do país, apesar de ser muito rico em recursos naturais e energéticos que, entretanto, nuca foram convertidos em benesses para as populações locais.

O México preparava seu ingresso no NAFTA, ficando assim obrigado a estabelecer uma série de medidas neo-liberalizantes, o que fragiliza ainda mais as comunidades locais. Desse modo, temos o fim da propriedade comunal da terra (os Ejidos) – por meio da eliminação do histórico Artigo 27 conquistado com a Revolução de 1911), reassentamento de comunidades inteiras sob pretextos ecológicos, derrubada de tarifas protecionistas dificultando o comércio local baseado no milho, café, silvicultura e pequena pecuária. De modo que hoje cria-se gado para o abastecimento de redes de fast-foods e outras corporações norte-americanos onde antes existiam terras comunais.

Em meados de 1990 os camponeses organizam-se pacificamente contra essas medidas, chegando a mobilizações que contavam com imensas marchas contando milhares de indígenas que apelavam para a salvaguarda dos seus direitos e interesses. Quando ignorados, decidem mudar radicalmente as táticas de enfrentamento. Começam a vender a produção e mobilizar tudo e todos a fim de se organizarem e comprar armas. Em 1994 lançam a I Declaração da Selva Lacandona – “Hoy Decimos Basta!”, ou “Hoje Dizemos Basta!”.

Aqui, vemos a amplitude da ocupação Zapatista no interior do Estado de Chiapas, localizado na região sudeste do país, após os primeiros combates.

Nesse site há uma série de mapas temáticos da região – pra melhor visualizar o conflito e as disposições das forças envolvidas

O movimento contou com o apoio de bispos, padres e catequistas da Igreja Católica, que passou dos milhares, fundamentados na Teologia da Libertação. Ajudaram sobretudo a organização dos sindicatos e dos camponeses, educação e informação. Tudo isso apoiado pelo forte sentimento religioso dos indígenas e povos da localidade. Vale lembrar que a Igreja, na região, vinha de um longo histórico de conflitos com o PRI (Partido Revolucionário Institucional) de Chiapas e com os proprietários de terra. No entanto, os católicos vão contra a alternativa armada e não apoiaram a insurreição de 1994.

Os militantes que fizeram parte dos conflitos armados eram, em sua maioria, indígenas das próprias comunidades atingidas pelas políticas governamentais, e por ex-militantes urbanos vindos de experiências em grupos guerrilheiros estudantis derrotados em fins dos anos 60, em sua maioria maoístas. Começa aí uma interessante história de sincretismo de idéias, diferentes tradições culturais e religiosas, imbricação de numerosas formas de prática política e social que culminou no estabelecimento do que hoje constitui o Neo-Zapatismo. Lembrando que as lideranças e os processos de tomada de decisões são fundamentadas na prática da democracia direta construída entre as próprias comunidades indígenas. O famoso porta-voz do movimento, o Subcomandante Marcos, não tem autonomia, e não teve quando dos levantes, para tomar decisões por si só ou baseado em pequenos grupos revolucionários vanguardistas.

As decisões devem ser endossadas por toda a comunidade organizada – até porque conta-se com toda ela quando das ações e para assumir as responsabilidades. Pessoas que não aceitavam as propostas definidas pela comunidade, chegaram a ser expulsas por recusar a participação no levante armado. O apoio dos civis em 1994 foi esmagador, refugiando-se juntamente na floresta quando da invasão das tropas federais e estaduais em 1995. Hoje, todos os líderes do Comando Geral do EZLN são escolhidos por meio de votações nas comunidades - comunidades essas que, também, os dão todo o suporte material além de apoiar a tática de “esconde-esconde” da guerrilha.

Os MAREZ (Municipios Autónomos Rebeldes Zapatistas), cidades sob controle do EZLN, correspondem à estrutura política/administrativa do movimento. É expressamente proibida a participação ou influência de quaisquer integrantes ou elementos do braço armado dos Zapatistas nas estruturas administrativas desses municípios, de modo a manter o princípio do auto-governo e do municipalismo tradicional tão caro às comunidades indígenas e camponesas. Essas localidades são governadas por Conselhos Autônomos, formados por homem e mulheres da região, que se ocupam de diversas questões como saúde, educação, trabalho, cultura e justiça. Existe todo um mecanismo que possibilita a participação do maior número de pessoas possível. Dentre as várias práticas existentes vê-se o voluntariado, o trabalho cooperativo e a formação de cooperativas, sem esquecer da prática da economia solidária. Não existe um sistema prisional ou polícia nos MAREZ, de modo que os “criminosos” não deixam de ser vistos como membros da comunidade, sendo-lhes aplicadas penas alternativas.

Esses municípios, por sua vez, fazem parte de um contexto mais amplo, espécie de regionais denominadas Caracoles. Cada localidade é representada por delegados e promotores escolhidos em assembléias, rotativos e destitutíveis a qualquer instante, que juntos formam as Juntas de Buen Gobierno. A função desse nível mais alto de governo é administrar as relações entre os povoados, bem como suas relações com o estrangeiro.

Algo que faz da experiência zapatista objeto de interesse é que, de todas as tradições que confluíram para o movimento, nenhuma delas manteve-se “pura”, ou detêm ambições de hegemonia. A cultura, hábitos e identidades indígenas são muito importantes, mas não podemos rotular o Neo-zapatismo como um movimento de caráter étnico. As diferença entre os indígenas, que historicamente contribuíram para o seu enfraquecimento frente ao colonizador, agora não consiste mais em um problema de bloqueio ao diálogo e cooperação. Em função das várias idas e vindas, desapropriações e etc., não existe mais uma homogeneidade entre as várias etnias indígenas envolvidas no processo, de modo que o principal elemento de unificação desses grupos é o fato de que todos se vêem como camponeses mexicanos explorados. Por parte dos guerrilheiros urbanos de origem marxista, o deslocamento é ainda mais interessante, como podemos ver nessa declaração do Subcomandante Marcos, onde afirma ter chegado na região com um projeto leninista/maoísta pronto de revolução, mas que acabou “perdendo” para os indígenas, reformulando por completo as suas percepções sobre mudanças sociais, liberdade e organização.

Então diz: “…esse exército e sua concepção sofreram uma derrota nos posicionamentos iluminadores, nas suas idéias de direção, caudilhistas, de revolucionários clássicos, segundo as quais um grupo de homens converte-se em salvador da humanidade ou do país. O que aconteceu, então, foi que essas idéias foram derrotadas no momento em que nos confrontamos com as comunidades e percebemos que, não apenas não nos entendiam; além disso, as comunidades tinham propostas muito melhores que as nossas. (…) Não tínhamos o que ensinar a eles em matéria de resistir. Nós é que nos convertemos em aprendizes, nessa escola de resistência, de saberes construídos em cinco séculos de resistência.”

Apesar dos vários elementos de caráter libertário (magonistas, anarco-comunistas entre outros), bem como marxistas (sobretudo vindo do socialismo libertário e do socialismo conselhista de tom luxemburguista), misturados ainda com as tradições de autonomia e solidariedade comunal dos indígenas, o EZLN não se vê como um movimento subversivo. Identificam-se como “patriotas” e “democratas”, fundamentando-se no Artigo 39 da Constituição mexicana que assegura o direito à alteração ou modificação da forma de governo. Há também apelos a discursos de tom terceiro-mundista, anti-imperialistas e por aí vai.

Interessante nisso tudo, também, é a preocupação com a estratégia política com forte teor pragmático. Não se sabe até que ponto o movimento tem um caráter nacionalista de fato, de modo que isso pode ser usado a fim de conseguir a simpatia de outros setores sociais, ganhos concretos para o movimento na sua relação tensa com os poderes constituídos, bem como deslegitimar discursos que visem uma repressão mais firme contra suas práticas. Mas, independente dessa questão do ser ou não ‘verdadeiro’, o fato é que isso foi muito bem usado por parte dos insurgentes. Isso porque fundamentam muito de suas críticas no viciado processo eleitoral mexicano, no domínio clientelístico do PRI em Chiapas (maior reduto eleitoral do partido no país), e à corrupção enraizada em todo o processo político e administrativo do Estado Mexicano. O levante não teve a data de escolhida por acaso, mas sim em função do fato de que o país acabava de entrar para o NAFTA, bem como em função das pretensões eleitorais e políticas de uma série de importantes líderes mexicanos o que, certamente, os fariam pensar mil vezes antes de levar a cabo repressões grotescas como tradicionalmente aconteciam às manifestações desse tipo.

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sábado, 2 de maio de 2009

Crise, autogestão e crítica do trabalho


O 1º de maio ainda ecoa. Em 2009, os ritos que marcam esse dia foram vivenciados de maneira diferente do que nos anos anteriores. Novos fatos perpassaram as celebrações e os protestos. Da crise, que se mostrou a tônica dos discursos, à gripe A, que esvaziou as manifestações no México, algumas antigas novas questões estiveram colocadas nesse último Dia do Trabalhador.

Nesse contexto, inúmeros discursos foram apresentados e, em muitos, possíveis soluções para a crise econômica foram proclamadas. Assim como por várias vezes haviam feito os representantes dos governos, das corporações, dos movimentos sociais e dos anticapitalistas, os porta-vozes da classe trabalhadora também lançaram sua opinião.

E, a partir dessas falas, é interessante perceber duas coisas. Primeiro: como visões bastante heterogêneas podem ser identificadas nesse grupo denominado os trabalhadores. Segundo: como o discurso em defesa do emprego, ainda que proferido por sindicalistas e proletários, assume tons muito similares àqueles que imperam entre patrões e governantes.

Momentos como o atual, em que equilíbrios artificiais são quebrados, ajudam a expor mais claramente algumas fraturas do sistema. Afinal de contas, qual o lugar do trabalho em nossa sociedade?

Para além das manifestações, das celebrações e dos discursos de 1º de maio, esse tópico constitui ponto nodal da crise atual. Não que o trabalho seja a sua causa. Fatores ligados à descontrolada especulação financeira e a não sustentabilidade de vorazes mecanismos de produção são muito mais importantes para a explicação do desencadeamento do presente cenário econômico.

Apesar disso, a crise atual tem atingido diretamente os empregos, nas mais diversas partes do mundo, resultado da extrema interdependência entre as economias globalizadas. E quando se fala em emprego, logo se coloca em pauta o tema do trabalho.

E, afinal de contas, essa crise, que teve sua origem imediata no mercado financeiro, também põe em xeque o trabalho?

Creio que sim.

E aí são diversos os elementos a se elencar em favor dessa idéia. Primeiramente podemos nos questionar sobre as fragilidades do emprego no contexto atual. Até quando postos de trabalho e, principalmente, a vida de quem os ocupa continuará sendo item de barganha das grandes corporações? Para sua geração tudo se justifica: isenção de impostos, suspensão de normas contra a poluição, danos ambientais, construções irregulares, desocupação de áreas pobres para a edificação de indústrias... Para sua manutenção tudo deve ser feito: ajudas milionárias pagas com dinheiro público, flexibilização de direitos trabalhistas... e tudo isso com a conivência de governos e sindicatos.

Se há uma coisa que a crise econômica deixou bem clara, é que no atual sistema o Capital nunca perde. E um dos seus grandes trunfos consiste na posse dos empregos, no poder de criá-los e extingui-los.

Mas quem conferiu esse poder às corporações? Ele se baseia apenas na concentração de capital ou encontra respaldo social?

Defendo que não se pode explicar essa situação apenas do ponto de vista do poder econômico das corporações. Vivemos em uma sociedade na qual a atual organização do trabalho tornou-se quase que inquestionável. Suas defesas assumem o tom de dogmas e tudo parece muito natural. A produção dos bens necessários à humanidade feita de outra forma é dada como impossível. O que nos resta é o trabalho tal como o conhecemos.

Outras alternativas, contudo, sempre foram colocadas. No atual momento de crise econômica iniciativas nesse sentido aumentam e revelam diferentes caminhos possíveis. Nessa perspectiva, as ocupações de fábricas, em especial, das que ameaçavam fechar sem pagar seus funcionários aumentaram significativamente.

E, com a tomada das indústrias, vêm as iniciativas de autogestão. Em tempos de crise econômica e inconseqüências do tão propalado mercado racional, responsável e auto-regulado, os trabalhadores dão mostras de que estão dispostos a assumir o poder sobre seus empregos.

Como defendeu Chomsky em recente entrevista, uma das saídas que se enxerga nesse momento de crise econômica é a participação direta dos trabalhadores, que deveriam, em conjunto, assumir a direção das corporações falidas. Ao invés de se nacionalizar essas empresas, onde as decisões continuariam sendo tomadas de cima para baixo, a implantação de sistemas de autogestão horizontal representaria oportunidade de se vivenciar administração verdadeiramente democrática.

Apesar de se apresentar como interessante alternativa, a autogestão por si só não significa a instauração de uma nova forma de se vivenciar o trabalho. Antigas experiências mostraram que, em muitos casos, a direção por parte dos funcionários representou apenas um plano de emergência, que por não rever os moldes em que a produção estava baseada, logo se desintegrou, com a retomada dos esquemas clássicos de administração capitalista.

As próprias pressões externas decorrentes da tentativa de implantação de novas formas de gerência em uma empresa que deverá responder a demandas que ainda estão baseadas no atendimento a um mercado capitalista são comprometedoras das experiências autogestionárias. Ou seja, é possível manter uma indústria sem torná-la competitiva? É possível torná-la competitiva sem utilizar modelos hierárquicos?

Mesmo com os obstáculos, a autogestão parece ser um importante caminho a ser explorado, não apenas em tempos de crise. Por meio dela, trabalhadores poderão retomar não só seus empregos, mas também avançar para além das limitações colocadas pela Sociedade do Trabalho.

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quinta-feira, 30 de abril de 2009

O Trabalho Liberta! Será mesmo? (parte 01)


Trabalho e Consumo. São os dois nós que detonam a possibilidade de uma sociedade mais justa, autônoma e sustentável. E nesse fatídico 1º de maio, em que a sociedade do trabalho se vê numa de suas piores crises, pretendo fazer um exercício de desconstrução desse que consiste no maior e mais bem enraizado absurdo tido como óbvio: o Trabalho (em outra ocasião discutirei a questão do consumo).

“Mas como assim? Como poderia o trabalho ser um empecilho à uma sociedade virtuosa? Ele é o nosso próprio ser! O que seria de mim sem o trabalho? É o centro de referências da minha identidade! É o que me mantém! É o único caminho possível para a felicidade!”

Nos primeiros contatos com textos que fazem uma crítica radical ao trabalho, não compreendi bem qual era ponto. Parecia coisa de vagabundos que queriam ficar à toa o dia todo, ou de intelectuais de gabinete que ganhavam 10.000 e ficavam pensando em merdas ao invés de fazerem algo que prestasse. Mero engano...a pretensa ‘indispensabilidade do trabalho’ é algo tão assentado em nossas vidas, tão intocado no mais profundo de nosso ser, que a primeira sensação de crítica a ela surge como um sacrilégio. Mas pensemos com mais calma...

Se no século XVI, um cidadão europeu chegasse para sua esposa e dissesse: “Será mesmo que Deus existe?” Muito provavelmente as conseqüências disso seriam 1)“Meu marido está louco” (dado ser pergunta sem o mínimo sentido naquela ocasião) e 2)Fogueira. O tempo passou, vieram o Movimento Iluminista, a Razão e o Humanismo e, depois de muitos assassinatos, torturas e perseguições, a idéia de um Deus como razão de nossa existência foi por água abaixo. Não estou fazendo aqui uma ode ao ateísmo, mas apenas colocando que, no mundo moderno, Deus ocupa só o espaço da porta da sua casa pra dentro, ou seja, ele deixa de ser algo totalizante, que explica, julga e governa a todos.

O problema disso tudo é que a “morte de Deus” não deixou a humanidade mais livre, já que o homem moderno criou para si outro deus, que substituiu o recém chutado: o Trabalho.

No mundo moderno, que habitamos, o Trabalho virou algo portador de um fim em si mesmo. Você trabalha porque...tem que trabalhar uai! Inicialmente, lá nos idos dos séculos XVII até o XIX, isso não era normal, de forma que foram necessários, novamente, assassinatos, torturas e perseguições, para que fosse aceita a férrea disciplina do trabalho voltado para a produção de excedente, a privatização da terra e das fábricas e a conversão dos camponeses ligados à terra em mão-de-obra barata, disciplinada, obediente e idiotizada – como somos hoje, idiotas!

O ponto central da crítica é o seguinte: trabalhamos, trabalhamos e trabalhamos pra gerar acumulação e valor somente (e isso acontece tanto no paraíso capitalista do consumo inveterado, quando no inferno comunista/socialista das planícies russas e chinesas ou dos charutos cubanos). E pronto! A ligação dessa produção com nossas reais necessidades e com uma relação decente junto ao ecossistema não importa em nada! A roda da economia tem que continuar girando e foda-se todo o resto!

As grandes cidades estão inviáveis. O infeliz perde 4 horas diárias da sua vida, durante 40 anos, indo e voltado do seu emprego (onde produz cabeças de alfinete), e acha isso normal. Não se consegue deslocar e nem respirar; a morte por atropelamentos é a terceira em quantidade no mundo; blocos de gelo com 8 vezes o tamanho de São Paulo se soltam da Antártida e, no fim do dia, assistindo ao Jornal Nacional ouvimos: “O Brasil já pode comemorar, a produção de carros está voltando a crescer e novos postos de trabalho foram criados. A crise vai passar.”! Vai passar!?! Que miopia é essa!?! Estamos no olho do furacão!! E achamos toda essa merda normal!! Isso é o que mata!!

Essa é uma lógica cíclica, idiotizante, que o Estado e o detentores do Capital, com anuência dos Sindicatos de trabalhadores que, dizem, proteger nosso direitos, criaram para se sustentarem. Pense comigo, Estado e Capital, na verdade, se legitimam administrando uma crise que eles próprios criaram. Quer exemplos? As sociedades indígenas clássicas, sem Estado, não conhecem o conceito de ‘fome’! Quem gera a violência do tráfico não são os usuários, mas a proibição do consumo veiculada pelos poderes públicos e privados! Nunca uma política de limpeza étnica poderia chegar ao grau de eficiência que muitas chegaram no século passado, e ainda nesse, sem o apoio de imensas máquinas estatais e bélicas que fragmentam e financiam todo o processo, e por aí vai.

Vivemos no mundo do trabalho alienado, sem finalidade fora de si, sem apego com as nossas vidas reais, sem um sentido realmente legítimo e justificável...produz-se, mais e mais e pra quê? Só pra eu ter a liberdade de escolha entre 15 marcas de sabão em pó na estante do supermercado!! Grande merda!! Ah, e claro, pra que possamos escolher o tarja preta mais forte de todas, a fim de nos mantermos dopados, já que é muito difícil encarar de cara limpa essa vida medíocre e insignificante que levamos: de bater ponto e viver em engarrafamentos.

Por mais que, lendo esse texto, continue me achando um otário, tenho certeza de que no íntimo você sente que o trabalho é uma praga. De que já imaginou a sua vida sem essa prisão...todos sentimos isso! O trabalho é tão desapegado dos nossos anseios, que é comum ouvir dizer que, quando o alarme toca às 6 da manhã, o corpo vai pro serviço, mas a alma fica em casa. É Marx que fala isso de forma convincente:
O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si. (...) Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer; foge-se dele como se fosse uma peste. (Marx, 1844)
Agora, em que se particulariza esse momento que vivemos? O ponto é que a sociedade do trabalho chegou ao seu extremo. Mesmo assim, só pensamos em sair da crise criando mais empregos! Nunca estivemos tão longe do pleno emprego, estamos sendo acostumados a viver vidas extremamente instáveis, medrosas e incertas. Não se consegue planejar a vida pra além de meses! Você tem que aceitar qualquer emprego, mesmo sendo o mais infundado e degradante, pois só é visto como ser humano se tem um “trabalho digno”.
Mesmo passando por esses perrengues, somos escrotos e burros a ponto de afirmar que quem não trabalha não merece comer nem viver – pois ninguém quer pagar bolsa família para ‘vagabundos’. Conforme está no ótimo Manifesto Contra o Trabalho, do Grupo Krisis: “O incômodo do ‘lixo humano’ fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres.”. Só porque alguém tem um emprego de merda, sente-se mais digno do que o resto. Nessa lógica, atiramos em nosso próprio pé, pois quem não trabalha é considerado supérfluo, refugo, falha do projeto, devendo ser tirado de circulação, colocado bem distante dos nosso olhos burgueses, deixados para fora das fronteiras, encarcerados em prisões ou albergues lotados e imundos do governo – não precisando de nada mais do que um investidor em ações acordar de mau humor pra que você perca seu lindo empreguinho. Sem contar o inferno que tem que suportar durante toda a vida pra manter essa aparências das coisas.

Mas a questão é que ninguém percebe que se deve lutar contra essa sociedade do trabalho: direitas e esquerdas, governo e oposição, sindicatos patronais e laboriais...todos querem injetar gás na máquina e gerar outro ciclo de expansão e crescimento das força produtivas. Quase tudo justifica a procura ou a criação de novos postos de trabalho, por mais ridículas, constrangedoras, socialmente inúteis e desprezíveis que estes possam ser...o que vale é estar ocupado e a manutenção da “roda da economia” funcionando.

Isso acabou! O meio ambiente está prestes a explodir, não há mais para onde os mercados expandirem e, para manter a roda do consumo, escraviza-se cada vez mais o trabalhador a fim de se conseguir produtos baratos. (Para você melhor entender essa crise, leia o tópico 11 do Manifesto Contra o Trabalho, disponível para download no fim do post).

Agora, não sejamos cínicos. A crítica à ideologia do trabalho deve se fundamentar numa perspectiva não só realista, mas também prática. Primeiro, não devemos esperar que as pessoas, amanhã, deixem de ir trabalhar. Todos estão presos a essa lógica, dependemos dos nossos empregos de bosta pra viver. Deixamos que as coisas chegassem a esse ponto, e desconstruir isso vai doer! Temos que refazer a economia sob outros princípios, voltados não para o atendimento dela mesma, mas sim das nossas necessidades materiais e espirituais reais. Por favor, posso ser um otário, mas não duas vezes...o fim do trabalho, como entendemos, não significa o fim da interação homem X natureza...isso é impossível! Sempre será preciso plantar, construir e o caralho...A questão é re-significar essa relação, acabando com o trabalho por si mesmo...alienado!

Abre-se aqui espaço para a discussão de novas estratégias, criemos formas embrionárias de emancipação social contra as forças sugadoras do Capital e do Estado (aquelas podem nascer como cooperativas autogestionárias de educação, moradia, saúde, alimentação etc., a própria pirataria, que tanto defendemos aqui no Blog do C.I.S.C.O., é uma nova forma de lidar com os produtos culturais).

As lutas defensivas dos trabalhadores, ainda internas ao sistema, não devem ser abandonadas, pois alienaríamos a própria crítica do trabalho das condições atuais dos trabalhadores. No entanto não devemos parar aí, mas conectá-las num movimento de recusa do trabalho também. Como poderia isso ser feito? Alguns falam em um reforço temporário do próprio Estado por meio de pressões mais profundas da sociedade civil, seria esse um caminho? Vamos discutir!

*-*-*

Aqui encerro a primeira parte desse post, pois já está ficando demasiado grande! Como você pode ver na seção “Quem Somos”, uma das prerrogativas básicas do C.I.S.C.O. é ir além da crítica pela crítica. Portanto, na segunda parte desse post, falarei de estratégias práticas, reais e atuais, que vêm sendo feitas nesse sentido de crítica ao trabalho.


Saúde e Anarquia!!

Grupo Krisis – Manifesto Contra o Trabalho

Grupo Krisis – Manifesto Contra o Trabalho em Mp3

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