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domingo, 15 de agosto de 2010

Instrumentalização de métodos para uma praxe anticapitalista

O presente texto faz parte de um esforço de reflexão que, entre outros componentes, objetiva um esclarecimento quanto possibilidades de resistência às poderosas tendências hegemônicas da contemporaneidade. Embora os cenários que nos circundam se aparentam bastante sombrios, há espaço para avaliações não derrotistas.

As principais propostas de resistência evocadas por grupos de tendências anarquistas ou socialistas parecem padecer de um mesmo mal, ou são míopes quanto as condições mentais e espirituais dos tempos em voga ou se perdem em bairrismos e especializações contraproducentes. De um lado há aqueles que querem atuar nos moldes dos levantes políticos do século XIX e da primeira metade do século XX: ou esperam uma revolução orquestrada por uma vanguarda mega-consciente de sua importância no devir histórico ou um levante espontâneo, pronto a varrer todos os ditames da opressão (desse modo despolitizando a própria ação política). Do outro lado, vemos grupos que desistiram das atuações holísticas, universalistas e engatadoras, suas atuações pautam-se por um imediatismo e localismo: freeganistas, ciclistas, vegans, web-ativistas etc.

Bem, os primeiros não valem maiores comentários – houve momentos nos quais o socialismo e o anarquismo em moldes clássicos eram possibilidades concretas. Porém esse tempo já passou e, idealizações românticas a parte, não há porque insistirmos em uma rememoração acrítica dessas experiências. Os grupos localistas merecem uma análise mais pormenorizada, tendem a conseguir integrantes para suas bandeiras com causas concretas e que atravessam o cotidiano dos grandes centros urbanos.

Os ciclo-ativistas e os freeganistas exemplificam essas correntes, a recusa ao automóvel e à sociedade de consumo, a busca por uma mobilidade e o direito ao usufruto dos excedentes conscientemente descartados. Ambos questionam valores da sociedade capitalista e, em um nível mínimo que seja, apresentam soluções para os problemas que apontam. No entanto o potencial do capital em absorver contestações é impressionante, a sua versatilidade só merece elogios, já que as crises e as dificuldades são importantes momentos para sua reinvenção.

Quando todas as vias estiverem abarrotadas de automóveis e estes veículos perderem a áurea que os cercam, os publicitários não pensarão duas vezes em elevar a bicicleta ao patamar de novo símbolo de status e desejo de consumo. Isso em nada interferirá no sistema do capital. O mesmo pode ser dito sobre as ocupações de prédios abandonados, a especulação imobiliária ainda tem larga faixa para explorar e os invasores não serão vistos como usurpadores, mas sim como futuros clientes a serem assimilados. Mesmo os que fogem à sociedade de consumo não estão ilesos, o exército de consumidores na ativa possibilita a manutenção de uma divisão na reserva.

Estou cético quanto aos movimentos contestatórios em moldes localistas que proliferam no cenário urbano e que não buscam vínculos com um eixo global. Avanço essa reflexão com a ideia de que as grandes cidades não são propícias para a prática anarquista. As práticas libertárias antes de se manifestarem como ação política se constituem em um fundo ideológico, cultural e subjetivo. Os moradores da cidade encontram-se dependentes da ação regulatória do Estado, que oferece a (falsa) sensação de segurança e normalidade, mesmo que em níveis precários. O controle da ordem, a iluminação pública, a limpeza urbana, o fluxo do trânsito e a gestão de outros serviços essenciais integram o rol das prerrogativas do Estado e de unidades jurídico-institucionais ou jurídico-particulares de poder.

As comunidades não compreenderiam facilmente a tese de uma falência do Estado como pré-requisito para uma vida cívica mais completa. Explica-se as dificuldades do anarquismo na cidade, a noção de um Estado protetor está internalizada. O próprio marxismo teria maiores facilidades para desenvolver nesses contextos, pois uma ditadura do proletariado é menos distante do que a perspectiva de uma ausência do Estado. Muitos podem ser convencidos de que a vida melhoraria se os oprimidos detivessem o poder e reformassem a ordem social, no entanto a ausência de estruturas de poder aterroriza os habituados com a vida de cativos.

Os movimentos libertários mais consistentes se desenvolveram em regiões rurais (ou de tradições rurais), onde a interiorização das instituições coercitivas limitou-se a superfície, dando ampla margem para a vida comunitária e colaborativa. A tese espontaneísta do anarquismo é verdadeira para cenários nos quais as redes vicinais preponderam, os mutirões são frequentes e a economia moral barra as pressões mais mercantis. Os grandes fazendeiros e as elites locais são associados ao Estado, portanto libertar-se da opressão equivale ao término dos poderes institucionalizados.

Seguindo essa linha de argumentação, aceitaremos a distinção entre campo e cidade como a diferenciação entre a fraca internalização e a forte internalização dos valores de submissão perante o Estado. Com a ausência de um poder estatal em uma megalópole como Nova York, por exemplo, e com a notória dificuldade dos anarquistas em se organizarem adequadamente em momentos críticos – vide a história militar da Guerra Civil Espanhola – não seria muito absurdo supormos que o caos, de fato, prevaleceria nos primeiros momentos (algo passível de se prolongar durante anos ou décadas).

A abordagem municipalista resolve, no nível teórico, esse problema. O movimento de emancipação seria das áreas rurais para os povoados e distritos, dali para as pequenas cidades e, em seguida, para as médias, a adesão dos grandes centros urbanos seria uma consequência final e esperada. O esfacelamento do Estado, no entanto, só se viabilizaria em conjunto com o desmoronamento do capital. Uma confiança nutrida no municipalismo não deve subestimar as habilidades dos sistemas piramidais do poder em eliminar os focos realmente ameaçadores.

Conforme dito anteriormente, neste texto e em outros posts, a ausência de uma articulação global de questionamento às forças hegemônicas pode reduzir uma promissora estratégia a um ato inócuo. Ao contrário do que se pensa, o Estado subserviente ao capitalismo é relativamente tolerante, e dentro de uma racionalidade do custo-benefício sempre se pergunta se vale o desgaste de coibir determinada expressão. Mas de modo algum há negligência quando as contestações atingem determinadas dimensões. Nesse sentido, uma das mais importantes dissonâncias à ortodoxia liberal-capitalista vive no EZLN, em Chiapas, e não obstante todo o seu potencial fabuloso, tal experiência não serve eficazmente como modelo de ação para outras regiões do mundo. Só a tradição política mexicana, com suas revoluções, sua rebeldia camponesa e seu cripto-anarquismo explicam esse novo projeto de mundo, infelizmente geograficamente muito restrito se comparado à onipresença do capital.

O anti-consumismo pode até fundamentar ideologicamente uma ação, e o municipalismo colocá-la taticamente em movimento, mas falta a estratégia engajadora e aliciadora. Algo que será encontrado na causa ecológica, o desafio mais poderoso ao capitalismo contemporâneo. Cada época forja as armas que serão utilizadas para sua derrocada – todos nós sabemos a quem pertence essa ideia – e o atual sistema de produção não foge a regra.

As atuais articulações corporativas para a defesa do meio ambiente são fracassadas e insinceras, mas têm cumprido o seu papel em conquistar novos adeptos para o capitalismo verde. Fala-se em preservação, em responsabilidade ambiental, em tecnologias não agressoras ao bioma. Entre o discurso e a prática vai uma larga distância, mas os empresários não podem mais minimizar as questões ambientais, pelo contrário, elevaram-nas ao patamar de importância máxima, tanto que já há uma especulação financeira na qual se vende o direito de poluir. O mercado de carbonos não é piada, mas a materialização das contradições do capitalismo,entre sua nova promessa preservacionista e seu conhecido afã predatório.

Muitas pessoas estão suscetíveis a essa mensagem, os lugares comuns sobre a defesa da vida esconde um processo de destruição sem precedentes que está em curso. Manutenção de reservas, reciclagem, compensações pelo desmatamento, uma encenação que aplaca os remorsos das classes médias. Todo modo, eis um compromisso que o Estado e o capital assinaram e que não podem voltar atrás impunemente. Além disso, o iluminismo trouxe a entronização definitiva do homem como entidade ética, este se tornou por sua racionalidade um ser superior. Em contrapartida a natureza despolitizou-se, realçada a condição de reserva das vontades humanas. No século XIX se viu uma romantização do natural em contraponto a leitura da civilização como o progresso. Uma das consequências desse processo é que se pode defender as causas ambientais tratando-as como se não consistissem em problemas políticos.

As corporações usam desse engodo: o manejo de animais ou a derrubada de árvores constitui-se tecnicidades, desligadas de qualquer decisão política – impassíveis e imparciais. As mineradoras promovem grandes atentados à vida não porque querem, mas por questão da ordem e método.

As corporações têm fiado as próprias cordas com que vão se enfocar. A intensificação da defesa ao meio ambiente poderá se fantasiar, por sua vez, em uma questão meramente técnica. Um discurso eficaz para convencer a opinião pública, enquanto nos subterrâneos da resistência surgem os verdadeiros amparos para as contestações radicalizadas. Não podemos negar que os tempos são de conservadorismo generalizado e não há nada que o homem mais deteste do que o próprio homem. O projeto sombrio que se materializou teve eficácia em destruir um sentimento de público e pertencimento, todavia a defesa ecológica incrivelmente não se associa a proteção dos oprimidos.

Uma ONG que propõe proteger grevistas do Terceiro Mundo não conquistará muitos simpatizantes, as suas bandeiras vermelhas ou negras são incômodas; também não aparecerão nas mídias oligopolizadas e tão pouco contarão com o apoio de celebridades. Uma ONG que proteja baleias receberá uma repercussão diferente, o verde não postula uma necessária recusa à propriedade e tende a angariar maior simpatia do público. Os movimentos ecológicos conformistas ou moderados poderão ser os escudos para o movimento verde realmente libertário e que reconhece que a salvação do homem implica na inequívoca desestruturação do modo de produção vigente.

No século XXI as pretensões não podem se apequenar, defender a vida no planeta significa o confronto com o capitalismo. A mentalidade preservacionista – nesse momento insignificante – poderá respaldar sentimentos coletivamente compartilhados de identificação com o “natural”. O que agora é cabotino tenderá em ser sincero. No advento da Idade Moderna, os burgueses detinham pensamentos vanguardistas no que concerniam ao comércio e ao lucro, e não com poucas artimanhas conseguiram universalizar tal modo de pensar. Eis o modus operandi que devemos seguir.

Uma boa estratégia é incentivar pequenas frentes locais e regionais, mas dentro de um discurso salvacionista global. A recusa em ter seu entorno, sua morada e suas reservas agredidas por um insano esquema de extração de riquezas pode suscitar vínculos mais sistêmicos. Uma geografia da poluição e uma história das corporações são coordenadas valiosas que dizem respeito mesmo aos mais indiferentes.

O que será retomado nos posts seguintes diz respeito à atuação dos libertários em dois níveis, convencimento e embate. Grupos moderados e com palavras confortantes que adquirem crescente projeção perante a opinião pública, preparando terreno para as tendências radicais e confrontadoras. As duas vertentes se encontram já que há uma retro-alimentação. Espera-se que uma crescente demanda da população por ações “verdes” tenha impacto nos Estados de regime dito democráticos e assim aumente a pressão sobre as corporações.

Vislumbra-se três elementos importantes nas lutas sócio-ecológicas do século XXI. O incentivo à cultura do gratismo – importante nos centros urbanos, que não são produtores, mas consumidores. A atuação em níveis locais/regionais/municipais descentralizando os combates mas tendo como eixo global a perspectiva salvífica da vida. A ênfase na defesa ambiental como estratégia principal em função do seu potencial mobilizador e de convencimento em diferentes níveis sociais e países.

Aqui se tem o início de uma agenda que devemos discutir.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sobre a Política de Alianças



Antes que alguém me acuse de plágio, deixo aqui o link do livro/panfleto que inspirou essa discussão, bem como a maior parte das opiniões e do raciocínio expresso a seguir. Trata-se de uma reflexão interessante acerca dos porquês e dos ‘não-porquês’ das políticas de aliança entre os libertários e outras tradições político-filosóficas.

É uma questão que vem me interessando continuamente e que, creio eu, extremamente importante para pensarmos o anarquismo tanto hoje como na sua trajetória passada. Esse post pode ser visto como um desenvolvimento de outro anterior, onde tentei estabelecer um diálogo entre o Pragmatismo e a Anarquia. Pois bem, vamos ao que interessa. Agora, se você é um daqueles puristas bem pé-no-saco, dê meia volta e saia fora.

José Danton (autor do panfleto), sugere que para pensarmos, nós libertários, a questão das alianças, devemos, antes, nos deter em três aspectos.

1) A necessidade de um fortalecimento interno dos movimentos libertários. (e com isso ele quer dizer que temos de nos preocupar com duas coisas: Programa e Organização);
2) A questão da hegemonia no âmbito dos movimentos sociais e políticos; e
3) A importância da autocrítica em lugar da onipresente auto-complacência entre os anarquistas de forma geral.

Sejamos práticos! De que adianta uma crítica certeira e bem fundamentada ao Capitalismo se, a partir daí, pouquíssimo temos a oferecer? Onze entre dez pessoas que apresento a crítica anarquista, acerca do sistema econômico sob o qual vivemos, com ela concorda em gênero, número e grau. Ótimo, isso não deixa de ter validade, o fato de grande parte das pessoas sentirem um desconforto ético em relação ao Capitalismo é algo de grande valia. Mas nosso problema é ético? Diz a grande mídia e as forças conservadoras que sim, mas creio que nosso problema é, antes, político, social e econômico. E por favor, não misturemos as coisas. O ponto é: a crítica por si só não mobiliza ninguém, mas sim a expectativa de que algo pode melhorar em sua vida é que faz o indivíduo mexer a bunda. O que significa que, sem um programa palpável minimamente definido, nada de quebrar o pau. No final das contas, por falta de programa próprio, acabamos nos posicionando, por afinidade ou rejeição, em referência a outras forças no contexto das esquerdas e/ou direitas.

Resumindo, acaba-se por tomar uma das duas posições: a) Rejeição de quaisquer alianças, ou b) Endosso inquestionável de uma corrente ou movimento qualquer.

Isso nos leva a um outro ponto, que é a questão do Sectarismo – o que me dá uma certa preguiça quando vista em auto-intitulados libertários, já que isso consiste numa contradição em termos. Mas, falar de alianças entre anarquistas em geral é algo que produz comportamentos extremados, onde se esquece que, de acordo com o bom princípio libertário, a pluralidade, o caráter caótico e a multipolaridade das linhas de organização é que fazem a força do movimento, bem como vão ao encontro do que, pelo menos em tese, desejamos.
Dessa maneira, podemos optar por adotar uma posição elitista e segura no conforto da nossa torre de marfim, de modo a não macular a pureza das nossas intenções (restringindo, dessa forma, a filosofia anarquista numa dimensão meramente ética), ou integrar, valorizar e saber usar as diferenças a fim de gerar as transformações sociais.

Segundo Danton, se você chegou até aqui, então, agora sim, devemos nos preocupar em como estabelecer as nossas políticas de aliança. Com muito cuidado e inteligência política, sob o risco de nos desprendermos do programa libertário, bem como dos que nos legitimam e apóiam. Lembrando que, nesse contexto, não se deve deixar de lado a problemática da Hegemonia pois, só assim, um trabalho de mobilização política e social se faz completo. E isso requer ORGANIZAÇÃO, dimensão até hoje não resolvida no âmbito dos movimentos ditos libertários (em breve farei uma discussão a respeito). Entra aqui, agora, mais um ponto, a necessidade da autocrítica.

Esse é o ponto do texto de Danton que mais me chamou atenção, e isso basicamente pela divulgação de informações desconhecidas por mim. Em meados de 1927, representantes das correntes anarquistas que participaram do processo revolucionário Russo de 1917, lembram que a causa da derrota dos grupos libertários frente aos Bolcheviques de forma alguma deve-se, principalmente, à repressão Estatal. Isso me pareceu estranho demais, dado que é lugar comum que o Exército Vermelho e a nascente burocracia comunista foram os responsáveis pela centralização de todo o processo e eliminação das tendências discordantes.

Mas usemos aqui o recurso da citação, e prestemos atenção nas palavras dos próprios anarquistas que, logo após o definhamento dos libertários na Rússia, faz esse profundo, e doloroso, exercício de autocrítica – bem diferente da auto-piedade reinante no âmbito dos movimentos libertários até hoje. Colocam, então, veteranos do Grupo Dielo Trouda que lutaram na insurreição makhnovista na Ucrânia:

“Adquirimos o hábito de culpar a repressão estatal do Partido Bolchevique pelo fracasso do movimento anarquista na Rússia(...). Isso é um grave erro. A repressão bolchevique dificultou a expansão do movimento anarquista durante a revolução, mas foi somente um dos obstáculos. Antes disso, foi a incapacidade interna do próprio movimento anarquista uma das principais causas deste fracasso, uma incapacidade emanada da imprecisão e da indecisão que caracterizaram suas principais afirmações políticas em relação à organização e às táticas”. (...) O anarquismo não tinha uma opinião firme e concreta sobre os principais problemas da revolução social, opiniões que eram necessárias para satisfazer as massas que faziam a revolução. Os anarquistas enalteciam a tomada das fábricas, mas não possuíam uma concepção precisa e homogênea sobre a nova produção e sua estrutura. Os anarquistas defendiam o princípio comunista: ‘de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades’, mas nunca se preocuparam em aplicar este princípio na realidade. (...) Incitavam as massas a livrar-se do jugo da autoridade, mas não indicavam como consolidar e defender os ganhos da revolução. Careciam de opiniões claras e de programas de ação precisos em relação a tantos outros problemas. Isso os afastou da atividade das massas e os condenou à impotência social e histórica. Nisso devemos ver a principal causa de seu fracasso na Revolução Russa. (...) tudo isto nos convenceu da necessidade de um novo partido-organização anarquista baseado em uma teoria, uma política e uma tática homogêneas.”

Pelo lado dos anarcossindicalistas, já em 1918 (!!), a opinião era convergente nesse sentido:

“Nós, anarquistas e sindicalistas - de fato, todos aqueles que crêem que a libertação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores - estávamos muito pouco organizados e éramos muito fracos para manter a revolução rumo ao socialismo. Não é necessário dizer que o socialismo não cairá do céu, e que uma única concepção de socialismo não é suficiente. (...) Havia uma necessidade urgente de organização sistemática e de coordenação de atividades. A revolução as buscou, mas pouquíssimos elementos estavam conscientes da necessidade e da possibilidade da organização federalista. E a revolução, não a encontrando, lançou-se nos braços do velho tirano, do poder centralizado, que agora sufoca seu respiro vital. Nós estávamos muito desorganizados, éramos muito frágeis, e por isso, permitimos que isto ocorresse.”

Decorre daí, e de outros exemplos históricos como o caso dos Magonistas na Revolução Mexicana, por exemplo, o fato que relutamos em assumir e que diz ser a principal fraqueza dos anarquistas, elementos internos ao movimento. Essa autocrítica, coloca Danton, está anos-luz da auto-complacência típica dos movimentos libertários das décadas seguintes em ao meu ver, até hoje.

O fato é que, na maior parte dos casos, os socialistas autoritários souberam se impor politicamente: têm um programa político claro, um forte chamado pragmatista e às necessidades palpáveis dos indivíduos, organização e por aí vai. Isso não significa que devamos endossar o modelo por eles adotados, mas simplesmente considerar os princípios cujo descaso, historicamente, foi responsável pelos nossos malogros: Programa, Organização, Hegemonia, Perspicácia Política e, se não a homogeneidade de ação, uma maior cooperação entre as várias frentes. O que isso significa e quais iniciativas ou movimentos devemos apoiar ou não, é algo pra ser analisado caso a caso.

Por fim, para agora concluir a respeito das Alianças Políticas de fato, a despeito das particularidades de Tempo e Espaço, Danton nos deixa alguns princípios gerais a serem acalentados, criticados e praticados (que, pessoalmente, não concordo com todos):

1) Fortalecimento interno do movimento, união/cooperação, formalização de um programa, caso contrário nunca nos converteremos em sujeitos dignos de serem levados em consideração para além de um bando de pessoas “do contra”;
2) A unidade não deve ser buscada a todo custo, mas sim avaliada frente às nossas propostas mais caras;
3) A eventual aproximação/aliança com uma outra força não deve significar uma união eterna e nem postergar nossos objetivos principais,
4) Tudo isso se deve, sempre, basear em articulações de cima para baixo.
5) Buscar a hegemonia libertária no seio dos movimentos. Lembrando que sempre existirão tendências conflitantes, por mais presença e força que os libertários tenham - de modo que,pensar na eliminação dessas outras alternativas é, por si só, algo que nos faria fugir de nossas características mais essenciais.

A conclusão é de José Danton:

“Hoje em dia encontramos, freqüentemente, anarquistas que enchem a boca falando sem parar do fracasso da esquerda latino-americana, do marxismo, etc. Qualquer um que escutasse isso pensaria, ingenuamente, que a história do anarquismo é, ao contrário, a história de uma série incrível de vitórias que fazem tremer os governantes e os capitalistas de todo o mundo. Mas até o anarquista mais alucinado se envergonharia de dizer tal absurdo. A insistência no fracasso dos “outros”, sem analisar primeiro nosso próprio fracasso, é como “o roto falando do rasgado” e não nos ajuda, em absoluto, a sair dos círculos marginais dentro dos quais se confinou o anarquismo em muitos países por décadas. Se é verdade que com os erros e fracassos alheios também se aprende, isso é totalmente inútil se primeiro não se aprendeu com os próprios erros e fracassos.”

Saúde e anarquia pra todos!

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terça-feira, 30 de junho de 2009

“Metas e Projetos”: Pensar o Anarquismo e o Pragmatismo



No período em que o C.I.S.C.O. se reunia concreta e freqüentemente, sem dúvida alguma, o tema que mais gerava polêmica dizia respeito ao que hoje pretendo abordar aqui; na verdade, já com um certo atraso, dado que consiste num aspecto central do nosso coletivo e, julgamos nós, num elemento indispensável para pensar o anarquismo para além de um mero discurso crítico, mas sim como algo palpável e que procure enfrentar e participar, de alguma forma, da chamada Real Politik sem, no entanto, perder de vistas suas propostas e princípios. Desse modo, em primeiro lugar, vejamos o dilema apresentado por Chomsky e, num segundo momento, em que medida a proposta pragmática poderia ajudar.

Em conhecido texto, “Metas e Projetos”, publicado aqui no Brasil pela Editora Imaginário, o lingüista e anarquista Noam Chomsky trata de estabelecer um interessante parâmetro de análise para se pensar as práticas anarquistas hoje. Segundo ele, e aqui ele vai ao encontro do argumento pragmatista, deveríamos pautar nossas ações por suas conseqüências no nível prático, real, e não tendo por base princípios ou coerência filosófica.

Assim defini Chomsky a relação entre Metas e Projetos: “Por projetos, eu quero dizer a concepção de uma sociedade futura, que inspire o que realmente fazemos, uma sociedade na qual um ser humano respeitável gostaria de viver. Por metas, eu quero dizer a escolha das tarefas que estão ao nosso alcance, e iremos seguir um caminho ou outro guiados por um projeto que pode estar distante e não ser muito bem acabado”

Grande parte das nossas decisões são tomadas com base nas experiências, medos e desejos que guardamos em nosso íntimo. Essas escolhas implicam em conseqüências humanas diretas, de modo que devemos, se nos consideramos agentes morais, ser cautelosos na definição e estabelecimento de nossas metas e projetos. Um slogan, um projeto de paraíso ou a crítica pela crítica são cômodos, mas igualmente vazios, para não dizer perigosos, se não consideramos os impactos humanos dessas tomadas de decisões.

Isso coloca cada um no centro de um drama moral, pois se levarmos isso em consideração, perceberemos que, constantemente, no dia-a-dia, as metas acabam se mostrando contrárias aos nossos projetos. E, para o autor, isso deve ser visto como algo normal e aceitável. E não digo isso apenas no âmbito da filosofia libertária, mas é algo comum em todo espectro político – tanto é que vivemos cobrando a falta de coerência dos partidos políticos (Ok, ok! No caso dos partidos no Brasil a questão é bem mais complexa!)

Avançando nos argumentos de Chomsky, ele coloca que, em função disso, aí já tratando especificamente do caso dos libertários, deveríamos hoje apoiar ações que, filosoficamente, não apoiaríamos. Em tese, a maior parte das propostas libertárias / anarquistas prezam pela destruição do Estado, mas será viável levar isso à sério num momento como o atual? E os impactos humanos disso em face a um avanço das tiranias privadas? Como apelar por um recuo dos poderes estatais? Em suma, a despeito dos nossos projetos, quais devem ser as nossas metas agora? Lembrando que se não considerarmos os dilemas presentes na Real Politik, corremos o sério risco de permanecermos como um grupo sem vínculo com o real e que, por isso, acaba não oferecendo alternativas para o que está aí. E, convenhamos, esse tipo de postura, historicamente, está / esteve presente em algumas correntes da filosofia libertária.

Então Chomsky conclui: “Minhas metas de curto prazo são defender e até mesmo reforçar elementos de autoridade do Estado que embora sejam ilegítimos de maneira fundamental, são decisivamente necessários nestes momentos para impedir os esforços dedicados a atacar os progressos que foram conseguidos na extensão da democracia e dos direitos humanos. A autoridade do estado está agora sob severo ataque nas sociedades mais democráticas, mas não por ela conflitar com o projeto libertário. Justamente o oposto: porque ela oferece (fraca) proteção a alguns aspectos desse projeto. Os governos têm uma importante falha: ao contrário das tiranias privadas, as instituições de poder e autoridade do Estado oferecem ao desprezado público uma oportunidade de desempenhar algum papel, mesmo que limitado, na gestão de seus próprios assuntos.”

Na verdade, nem sei se concordo com Chomsky quando diz que o Estado está sob ataque das tiranias privadas (multinacionais, bancos e grandes poderes econômicos em geral); na medida em que acho mais viável falar que o poder desse Estado, em geral, tem atendido aos interesses dessas tiranias. Afinal de contas, estamos cansados de saber que o “neo-liberalismo”, como bem manda a teoria, nunca existiu – caso contrário, os bancos, agora com essa crise, não deveriam estar ganhando bilhões em verbas públicas, que estão sendo transferidas para os seus cofres. No final das contas, souberam ser bastante pragmáticos – no sentido medíocre da palavra.

O problema dos fundamentalismos filosóficos é que, sempre que vamos abordar uma realidade qualquer a partir deles, já temos as respostas de antemão, de modo que as conseqüências disso são postas em segundo plano em favor de uma certa coerência ideológica. Quanto falo em trazer o pragmatismo para o contexto da prática libertária, é justamente o contrário que desejo fazer, ou seja, analisar cada situação na sua particularidade para, depois, dentro de uma esteira ética (humanista e que considera o médio e o longo prazos), assumir posturas ou adotar determinadas práticas. Se o que faço agora pode prejudicar a integralidade das minhas idéias, dane-se! Afinal de contas, não podemos estabelecer uma linha de continuidade direta entre nossas posturas filosóficas e as posturas políticas pois, nesse caso, estaríamos a um passo do Nazismo ou do Stalinismo; bem como, até, longe de sermos levados a sério dentro do escopo político atual. Sendo nada mais do que moralistas que só criticam e propõem idéias inviáveis de serem consideradas no momento. Pois num momento de extrema insegurança (desemprego, fim da seguridade etc.), pedir pra que as pessoas abram mão do Estado, não passa de puro cinismo e imoralidade.

Nesse sentido, em texto sobre “anarquia pragmática”, o Site Artigonal, coloca: “o pragmatismo pode ser inspirador, pois ele nega as verdades universais e considera apenas aquilo que funciona, temporariamente e localmente.”

Dessa forma, o discurso dos anarquistas deveria ser não mais narrativas grandiloqüentes acerca da libertação das classes oprimidas rumo ao mundo da liberdade (e felizmente os libertários estão, em grande parte, superando isso). Mas sim, o apoio ao reforço de uma gama de elementos específicos dos poderes estatais, sobretudo os que dizem respeito aos direitos humanos, sociais, políticos e civis – sem, no entanto, para de criticar e agir no sentido de destruir essa mesma autoridade, indo além dela: redes de economia solidária, defesa radical do Copyleft, criação de cooperativas visando seguridade social e etc. Isso pressupões mais força para os movimentos sociais, mais espaço pro povo atuar nas políticas econômicas, mais referendos e plebiscitos, mais mecanismos de participação direta e etc. Quando falo em reforçar elementos de autoridade do Estado, é nisso que penso, em elementos que se justificam, e não quaisquer elementos!

Enfim, devemos convencer as pessoas de que a vida anárquica é muito mais do que um “bom emprego” e a perspectiva de consumir infinitamente. Temos que conseguir mostrar que a democracia como se mostra hoje, novamente por meio de discursos de “fim da história” (com uma leve pausa por conta da atual crise), não consiste no que de melhor a humanidade pode criar. E, para isso, a filosofia pragmatista, que nasceu nas raízes da frutífera tradição democrática norte-americana (lá com aqueles liberais de base que andam tão esquecidos), pode em muito nos ajudar.

O Estado (democrático ou não) oferece às pessoas uma seguridade mínima que, até hoje, ninguém criou coisa melhor dentro da tradição ocidental. E ninguém vai abrir mão disso sem um horizonte minimamente palpável e viável. Tanto que, e falo isso por mim, apesar de me considerar um libertário, estou louco pra passar num concurso público. Por isso devemos ser pragmáticos, pensar em melhorias no mundo do trabalho e do consumo, criando redes e mais redes de cooperação, federações de cooperativas que possam, agora sim, propiciar projetos de mudança que tenham um respaldo ético e humano por trás de si.

Saiba mais:

O que é pragmatismo – artigo que explica de forma simplificada essa filosofia

Relação entre Política e Filosofia

Saúde e Anarquia pra Todos!!

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